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Camarotização • 17/02/2017 - 12:02 • Atualizado em: 17/02/2017 - 18:07

Camarotes privados e Carnaval de rua disputam espaço no Marco Zero do Recife

Estruturas particulares avançam por sobre a calçada. Administração do Porto garante que espaço é privado

por Eduarda Esteves
Foto: Chico Peixoto/LeiaJáImagens Camarotes avançam por sobre espaço público. Porto e camarote alegam que área é privada
A oito dias da abertura oficial do Carnaval do Recife em 2017, a estrutura física do Marco Zero, principal polo carnavalesco da capital pernambucana, já começa a ser preparada. De um lado, profissionais trabalham na montagem do palco principal de apresentações abertas ao público. Do outro, equipes montam uma instalação de ferro sobre a calçada da praça para servir de complemento ao camarote privado do restaurante Seu Boteco, localizado no armazém 12 do Porto do Recife. 
 
Reconhecido internacionalmente como uma festa democrática de rua feita para o folião "pé no chão", que preserva as tradicionais manifestações culturais, o Carnaval recifense no polo do Marco Zero ganha cada vez mais espaços privados e parece ter o aval da atual gestão municipal. Em recente entrevista ao LeiaJá, o prefeito Geraldo Julio afirmou, no entanto, que o polo do Marco Zero é 100% público. "Não existe nenhum camarote privado e a área é aberta à população", disse.
 
Apesar de privado, na prática, o 'Camarote Seu Boteco' ocupa parte da calçada do Marco Zero com uma estrutura que já está montada. No publicação oficial do evento, a organização diz que o espaço conta com "uma varanda com vista privilegiada direto para o palco principal do Carnaval, o Marco Zero". Chegando à terceira edição em 2017, os ingressos para um dia no camarote custam R$ 280 (mulher) e R$ 300 (homem) e estão sendo vendidos no local.
 
A menos de 500 metros do Seu Boteco, uma outra área também contribui para a "camarotização" do folia recifense. O Camarote Parador fica em um estacionamento do novo Cais do Porto, espaço de concessão pública cedido pela União ao Governo de Pernambuco. Inicialmente, o local havia sido projetado para ser uma praça com área verde de frente para o mar, mas houve uma mudança de planos antes do projeto sair do papel. Atualmente,  o local é utilizado por empresas privadas para a realização de shows. No Carnaval, serão três dias de apresentações pagas. 
 
No ano de 2016, o advogado Pedro Josephi entrou com um pedido judicial para impedir que o funcionamento do Parador por comercializar um espaço púlico. Na época, Josephi também alegou que os shows do Parador causariam um impacto imenso nas apresentações gratuitas do palco do Marco Zero por causa da quantidade de pessoas atraídas para os shows pagos e pela logística do som utilizado no local. 
 
Um ano depois, em 2017, o advogado conta que a liminar ainda não foi sequer julgada. "Desde 2015 aquele espaço tem sido locado apenas para um grupo específico de produtores culturais de maneira permanente. Não há possibilidade de outros grupos também utilizarem o espaço", afirm. Para ele, um outro problema é que o Parador descaracteriza o Carnaval pernambucano. "Esses camarotes aumentam a distância entre ricos e pobres e geram ainda mais hostilidades entre as classes", lamenta Josephi.
 
Camarotes como 'símbolo da elite'
 
Famoso mundo afora, o Carnaval da capital pernambucana tem tradição em desfiles de agremiações e na mistura dos públicos nas ruas. Diferente de Salvador, a festa não possui histórico de isolar os foliões por cordões para separar os privilégios de cada um. Para o professor e ativista do Direitos Urbanos, Leonardo Cisneiros, os camarotes no Marco Zero são símbolos fortes de uma cidade privatizada, acessível apenas para uma elite. 
 
"Estando em espaços públicos ou não, os camarotes privados competem com a festa pública e distorcem a democracia carnavalesca", opina Cisneiros. Para ele, a lógica da 'camarotização' é a mesma dos condomínios fechados nas cidades. "As pessoas acabam ficando com medo de se misturar nas ruas, mas ao mesmo tempo querem estar alí, só que de cima", afirma o professor.
 
A problemática dos camarotes privados no Marco Zero foi o motivo apontado pela banda pernambucana Nação Zumbi para optar por não tocar na festa em 2017. O vocalista Jorge du Peixe contou que não concorda com o posição da gestão atual. "A gente não está conivente com prefeitura e a política cultural que está rolando. Colocaram camarotes privados em um local público e alí não é lugar para isso. Por isso optamos por não particpar da festa esse ano", disse Peixe, em entrevista exclusiva ao LeiaJá
 
Com décadas de uma respeitada carreira e amante do frevo, Ademir Araújo, o maestro Formiga, que se apresenta no palco do Marco Zero todos os anos, lamenta a forma como os camarotes invadem o espaço do povo. "Carnaval é na rua porque é sinônimo de liberdade. Eles querem ficar de cima olhando as pessoas e isso também é uma forma de opressão", explica o músico, um dos maiores mestres vivos do frevo.
 
Amante da cultura carvanalesca tradicional, Formiga concorda com a retirada dos espaços privados do Marco Zero e diz que poderiam ceder os locais para o desfile de mais agremiações e orquestras de frevo. "Esses locais fechados não acrescentam em nada para o Carnaval do Recife, não se pode avançar destruindo o passado", critica. 
 
Quem paga a conta?
 
As inúmeras críticas aos camarotes privados localizados a poucos metros do palco do Marco Zero vão além da questão cultural da Folia de Momo. Em 2016, muitos foliões reclamaram da superlotação do polo, da falta de acessibilidade e de que o som do Camarote Parador atrapalhou quem gostaria de acompanhar a apresentação gratuita do palco principal.
 

De acorco com Raquel Meneses, urbanista e pesquisadora do Instituto de Pesquisa e Inovação para as Cidades (Inciti), há uma sobrecarga na quantidade de pessoas circulando pela área, o que acarreta no aumento da demanda por serviços públicos, desde a segurança até o transporte. "Os camarotes são estruturas que funcionam de forma autônoma e que independem da programação aberta oferecida pelo município, e portanto poderiam perfeitamente estar localizados em outras áreas da cidade com menor fluxo de pessoas", aponta a pesquisadora. Raquel explica que, apesar de o deslocamento desses eventos privados ser o ideal, o 'chamariz' do Carnaval do Recife os mantêm no entorno da folia do centro da cidade.
 
No Camarote do Seu Boteco, por exemplo, a empresa anuncia o evento como tendo o palco do Marco Zero como a atração principal da noite. "Os organizadores dos camarotes podem se utilizar desse investimento público para aumentar as vendas. E mais uma vez o o 'estado' fica em desvantagem", pontua a arquiteta.
 
Para a gestão municipal, camarotes privados que cercam a área não interferem no espaço público da festa. "É uma marca desta gestão a abertura da área do Marco Zero, proibindo espaços privados, inclusive estruturas para captação de imagens por parte das emissoras de TV, por exemplo".
 
Segurança
 
 
No último Carnaval, o polo em questão foi cenário de muitas confusões e tumultos durante os shows das bandas Nação Zumbi, Jota Quest e O Rappa. Foliões relataram ter presenciado brigas e muitos roubos em vários pontos do centro histórico. Presente na confusão no Marco Zero em 2016, o arquiteto Jonas Lima lamenta não poder assistir ao show de umas das bandas favoritas por causa da falta de estrutura. "Amo o carnaval, nasci em um sábado de Zé Pereira, mas a inexistência de organização dos órgãos oficiais em gerir um evento de caráter público de grande porte é notória".
 
De acordo com o presidente do Sindicato de Policiais Civis de Pernambuco (Sinpol), Áureo Cisneiros, uma das causas da frágil segurança é o deslocamento de equipes policiais para atuação nos camarotes. "Não deveria ser atribuição da Polícia Civil e Militar, porque nosso trabalho tem que ser focado em quem está nas ruas e nos focos públicos", argumentou. 
 
o LeiaJá entrou em contato com a assessoria de imprensa do restaurante seu Boteco e a equipe informou que não se posicionaria porque a calçada ocupada pela estrutura de ferro 'pertence o ao Porto Novo Recife e não é pública'. A assessoria dos Armazéns do Porto repetiu a informação e explicou que a área ocupada é arrendada ao Porto do Recife. "Somente o Marco Zero é da Prefeitura, toda a área ao redor é de propriedade da administração portuária".
 
Por outro lado, a Prefeitura do Recife informou que já está agendada uma vistoria por parte da Secretaria de Mobilidade e Controle na área do Bairro do Recife justamente para verificar quaisquer irregularidades na região.
 
Questionada sobre a autorização para o funcionamento dos espaços privados no Marco Zero, a gestão municipal explicou que cede apenas a concessão de licenças e alvarás para os estabelecimentos durante o período do Carnaval e realiza a fiscalização do cumprimento às normas.
 
"A Secretaria de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Recife vai atuar com equipes da brigada ambiental durante o Carnaval. Os guardas ambientais irão verificar se os estabelecimentos denunciados possuem autorização sonora no Bairro do Recife e em outras localidades. Caso não, serão autuados".

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