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85 anos do calunga • 26/02/2017 - 12:09 • Atualizado em: 26/02/2017 - 12:45

Celebração, frevo e stress: O Homem da Meia-Noite visto de dentro

por Geraldo de Fraga
O Homem da Meia-Noite se ergue e um detalhe da cabeça na janela é suficiente para o delírio tomar conta Foto: Brenda Alcântara/LeiaJáImagens
Um dos momentos mais marcantes do Carnaval de Pernambuco, a saída do Homem da Meia-Noite, como qualquer grande evento, demanda uma produção gigantesca, com um profissionalismo pouco visto em uma agremiação. Se no meio da rua uma multidão aguarda em polvorosa, num imprensado sem fim, ver o calunga dentro da sede é privilégio para poucos. 
 
Como este ano a roupa confeccionada pelo terreiro Xambá era segredo absoluto até os últimos momentos, o boneco tinha até segurança particular. Desde às 20h, Severino Gervázio posicionou-se ao lado do boneco gigante com uma única missão: evitar que se veja o figurino. "A ordem é que ninguém pode ver. Nem eu vi", confessa.
 
O entra e sai é constante. Convidados, imprensa que cobre o evento, membros da diretoria (agitados para que tudo saia como planejado), seguranças dentro e fora do local.  Houve duas quedas de energia. Com tanta movimentação os nervos ficam à flor da pele. Algumas discussões mais ríspidas entre o pessoal da produção mostram que ninguém está ali apenas pela brincadeira.
 
Quando a hora da saída se aproxima a coisa fica mais agitada. Ao som dos berimbaus, começa uma contagem regressiva. Apesar de toda carga religiosa da história do bloco, não há nenhum ritual do tipo, mas muitos se emocionam. "Ele é especial", diz um dos espectadores, sem explicar o motivo, apenas sentindo o clima.
 
Às 23h36, a cortina finalmente é retirada e o terno novo do calunga revelado. Em tempos de redes sociais, os celulares, como que por reflexo, são sacados para fotos e vídeos. Em seguida, o adereço é levado e o carregador é vestido ao lado da porta. "Abaixa, deixa o rei passar", grita um folião.
 
Às 23h45, o Homem da Meia-Noite se ergue. Um detalhe da cabeça que surge na janela é o suficiente para o delírio tomar conta da rua. "Uh, f... o homem apareceu", ecoa pela estrada do Bonsucesso, mas é como se ecoasse por Olinda inteira. Pontualmente a zero hora, os portões se abrem e é como se um furação surgisse acompanhado pela chuva de papel prateado picado e os metais da orquestra de frevo.
 
Após uma música, o som dá uma parada. "Isso é briga. Quando para assim é porque tá tendo confusão", diz um dos admiradores do bloco, ainda na sede, ansioso para acompanhar o cortejo. Ele e mais alguns se exaltam pela demora dos seguranças em liberar a saída do povo que está do lado de dentro. O frevo retorna e a multidão segue o boneco.
 
A festa é conhecida pela várias brigas e algumas pessoas preferem ver da calçada ou das janelas das casas. São cerca de 100 seguranças particulares, mais um destacamento da Polícia Militar, mas é como se o clima hostil já fizesse parte da tradição e fosse algo impossível de ser contido.
 
O calunga seguiu para entregar a chave da cidade à Troça Carnavalesca Mista Cariri Olindense, no bairro de Guadalupe, fazendo a abertura simbólica do carnaval da cidade. “Emoção é a palavra que define. Esse bloco é envolvido por afeto”, diz Luiz Adolpho, presidente da agremiação, cansado, mas feliz, após outro desfile. O de número 85 na história do Clube de Alegoria e Crítica o Homem da Meia-Noite.
 

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