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Pernambuco • 10/01/2018 - 12:07 • Atualizado em: 11/01/2018 - 16:41

Conheça a misteriosa história da Calunga Dona Joventina

Disputada pelos Maracatus Estrela Brilhante do Recife e de Igarassu, a boneca foi levada para os EUA por antropóloga norte-americana e teria pedido para voltar para Pernambuco

 


 

por Marília Parente
 
Dona Joventina integra exposição do Museu do Homem do Nordeste (Chico Peixoto/LeiaJá Imagens)
 
“Eu sou a Calunga Dona Joventina, do antigo Maracatu Nação Estrela Brilhante, fundado no Recife, em 1919. Eu ‘nasci’ ou se vocês preferem, fui talhada em madeira nobre por um santeiro muito talentoso, de nome desconhecido (infelizmente), um pouco antes de 1910- quer dizer, estou quase centenária!”. Estamos em março de 1996 e a antropóloga norte-americana Katarina Real lê em voz alta para uma atenta plateia, uma carta que teria sido ditada pela própria boneca, com quem afirmava poder se comunicar, durante sua cerimônia de entrega ao Museu do Homem do Nordeste (MUHNE), da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). O evento acontece a contragosto das nações de maracatu Estrela Brilhante do Recife e Estrela Brilhante de Igarassu, que reivindicam a posse da calunga, levada aos Estados Unidos pela pesquisadora. 
 
“A calunga é uma entidade tutelar de um maracatu, uma divindade que tem a função de proteger o grupo de brigas e até doenças. Quando ela sai na rua, está protegendo a nação. Dona Joventina foi entregue ao Museu viva, pois contava com todos os seus axés, isto é, substâncias e objetos ligados ao seu Orixá”, explica a antropóloga da Fundaj Ciema Silva de Melo. Responsável por carregar os segredos dos ancestrais de um grupo de maracatu, a calunga, dentro da tradição do candomblé, é a entidade que, durante o jogo de búzios feito pelo pai ou pela mãe de santo durante a inauguração de uma nação, manifesta interesse em acompanhá-la. “Ela teria poderes mágicos. O mais importante na calunga não é sua aparência, mas o que ela carrega dentro dela. Poucos sacerdotes detém os segredos e as técnicas que levam um objeto inanimado a transformar-se em uma divindade”, completa Ciema. 
 
Na tradição do candomblé, as calungas são responsáveis pela proteção do maracatu. (Chico Peixoto/LeiaJá Imagens)
 
Por muito tempo, o maracatu Estrela Brilhante de Igarassu questionou o xará recifense acerca da origem da boneca. Contactado pela reportagem do LeiaJá, o grupo preferiu não se manifestar sobre o caso. Em registro feito pelo documentário “Dona Joventina” (2010), de Clarisse Krubrusly, no entanto, a falecida líder da nação, Dona Olga de Santana, afirma que a Calunga desapareceu e precisou ser substituída por outra. “Essa boneca era do maracatu do meu avô e sumiu. Quando a gente começou a brincar, Minervino fez essa Dona Emília. Quem domina o maracatu é ela”, defende. 
 
Da mesma maneira, o maracatu Estrela Brilhante do Recife atualmente desfila com uma nova Dona Joventina, além da Calunga Dona Emília. “Existe uma história antiga de que Dona Joventina foi roubada de Igarassu para Recife. Eu não sei o que aconteceu ao certo, quando entrei no maracatu, já tínhamos outra calunga Joventina, além de Dona Erundina”, relata Marivalda dos Santos, rainha e presidente da nação.
 
Dona Marivalda com nova Dona Joventina, uma das duas calungas do Estrela Brilhante do Recife. (Rafael Bandeira/LeiaJá Imagens)
 
Marivalda, no entanto, se recorda de ter recebido Katarina Real, na atual sede de sua nação, no Alto José do Pinho, na Zona Norte do Recife. “Ela tinha passado cerca de vinte anos com a boneca no exterior e veio me avisar que estava trazendo-lhe de volta, porque ela estava pedindo para voltar para Pernambuco, mas que não me ia me entregar, ia dar ao Estado”, conta. Para a rainha, naquele momento a norte-americana deveria tê-la entregado Dona Joventina. “Ela falou para mim que pegou a boneca para pagar os estudos da filha de Seu Cosmo, fundador de nosso maracatu. Foi quase uma compra, a boneca ficou para ela como se fosse uma coisa, para enfeitar a casa dela. Se o maracatu está na ativa, não está no museu e se ela recebeu dele, deveria ter devolvido para mim”,queixa-se.
 
A versão de Dona Marivalda condiz com a que está registrada na carta supostamente idealizada pela própria boneca, no trecho:
 
“A filha de criação de Dona Assunção era uma adolescente muito linda e simpática chamada Lenira e era ela a dama do paço que me pegava para dançar e brincar no maracatu durante os desfiles carnavalescos. Posso lhes dizer que Lenira era uma dama do paço extraordinária, maravilhosa, e eu sempre ficava muito feliz dançando e rodando com ela [...] 
 
Num certo dia, em 1966, exatamente há trinta anos, dona Assunção me enrolou numa toalha e me levou ao apartamento de Katarina, no 14 andar do Edifício Duarte Coelho, onde havia a ‘Torre do Frevo’. Ela contou a Katarina que durante uma sessão espírita, lá na casa dela, um mestre baixou para avisar que dona Assunção não precisava mais botar o maracatu na rua: que ela podia vender todas as alfaias da Nação, com exceção de mim- a Calunga dona Joventina- e que eu teria que ser dada de presente a Katarina.
 
Todo mundo já sabe o resto da história: que Katarina aceitou a honra de ser minha guardiã e que ela e seu marido, Bob (aqui presente), custearam as despesas da educação da dama do paço Lenira numa boa escola secundária do Recife”.
 
 
Katarina Real com Lenira dos Anjos e Dona Joventina. (Katarina Real/Acervo da Fundação Joaquim Nabuco)
 
Segundo relata a antropóloga Ciema Melo, Katarina Real afirmava se comunicar com Dona Joventina, com quem teria desenvolvido uma relação de amizade. “A antropóloga chegou a comprar jóias para a boneca e costurou o vestido amarelo que ela usa atualmente. Isso foi considerado ofensivo para um dos grupos que reclama a Calunga, para o qual ela é consagrada a Iansã, devendo utilizar a cor vermelha”, comenta. 
 
Apesar das críticas, Dona Joventina permanece coberta de jóias e de vestido amarelo, na entrada da exposição do MUHNE, ao lado da imagem do São Mateus do Engenho Massangana, onde nasceu Joaquim Nabuco. “O Museu seria bastante sensível à devolução da Calunga, a questão é que não temos condição de arbitrar a disputa que existe por ela. Dos dois grupos, quem está certo?”, justifica. 
 
Dona Joventina exposta no Museum of International Folk Arts, em Santa Fé, nos EUA. (Katarina Real/Acervo Fundação Joaquim Nabuco)
 
O museólogo da Fundaj, Maximiliano Roger, garante que, hospedada na instituição, Dona Joventina recebe tratamento especial, que mescla os procedimentos técnicos a uma certa ritualística. “Seria muito frio tratá-la como um vaso, aqui ela é uma divindade, participando das higienizações regulares do museu, às segundas. Sua manutenção, contudo, é feita exclusivamente pelo funcionário mais antigo que temos. Existe todo um cuidado para, por exemplo, retirar sua saia”, conta.
 
Em perfeito estado de conservação, Dona Joventina continua intrigando as novas gerações. “Na época de sua devolução, o Museu era um dos mais evidenciados da cidade, então é muito comum ouvir dos mediadores que alguém veio procurar a Calunga. Tanto gente que segue as religiões africanas quanto gente interessada no mito da boneca que falava”, completa Maximiliano. 
 

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