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Tradição carnavalesca • 12/01/2018 - 15:32 • Atualizado em: 12/01/2018 - 16:02

Ainda existe La Ursa no seu bairro? Tradição luta para não desaparecer

Ao som da percussão improvisada em latinhas, os brincantes entoavam repetidamente a marchinha: “A La Ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro”

por Eduarda Esteves
. Foto: Acervo Fundaj

Nas calçadas ou praças de bairros mais periféricos, as batucadas em latas de tinta eram ouvidas de longe junto ao chacoalhar de poucas moedas dentro de uma cuia. O desfile cheio de peripécias e brincadeiras no período pré-carnavalesco era tradição e uma forma de conseguir alguns trocados da população, que muitas vezes permanecia dentro de casa para não colaborar. Vestidos com roupas feitas manualmente de estopa, tirinhas coloridas de tecido e uma máscara de papel-machê ou papelão, as La Ursas de rua marcaram época nos festejos carnavalescos de Pernambuco.

Qualquer um podia participar da brincadeira. Mas, geralmente, um homem ou uma mulher mais velha se vestia de La Ursa e desfilava pelos bairros com um grupo de crianças responsáveis pelos batuques e gritaria. Ao som da percussão improvisada, os brincantes entoavam repetidamente a marchinha: “A La Ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro”. Com espontaneidade, os participantes seguiam pelos subúrbios da Região Metropolitana do Recife de porta em porta. Ao longo dos anos, a manifestação cultural resistiu e apesar de menor intensidade, ainda é mantida em muitos locais da capital pernambucana.

O figurino do ”la ursa” atrai a atenção e curiosidade por onde passa (Paulo Uchôa/LeiaJáImagens)

Existem pelo menos três versões de como a tradição surgiu e chegou a Pernambuco. A mais famosa diz que a brincadeira remonta à Itália e foi trazida da Europa por trabalhadores italianos para o Brasil, no período colonial, e passado por um processo de hibridização com outros folguedos da cultura local nordestina, como bumba meu boi, caboclinhos, entre outros, até chegar ao formato atual.

A outra teoria atribui a criação aos ciganos europeus, que percorriam as cidades com animais selvagens presos a correntes iam de porta em porta dançando para arrecadar moedas. No século 19, junto a grupos de imigrantes italianos, esses ciganos ligados à arte circense chegam ao Brasil e incrementam a brincadeira ao imaginário da cultura nordestina. Há ainda uma terceira possível origem para a cultura da La Ursa. Na história oral, pessoas do meio também atribuem o início à infância do filho do Marechal Floriano Peixoto, que gostava bastante de brincar com ursos.

Em Pernambuco, o registro histórico mais antigo de quando a brincadeira teria iniciado está no livro “Folclore Pernambucano”, do escritor Pereira da Costa, em que ele publicou o relato do viajante francês Tollenare. Ele esteve em terras pernambucana em 1817 e escreveu sobre uma brincadeira entre homens e mulheres e representações do urso no pátio de uma igreja no Recife.

Resistência e espontaneidade: a La Ursa ainda é viva nas periferias

Décadas depois, apesar de atualmente os carnavais de bairro e as La Ursas de rua passarem por um período de elitização do Carnaval e perda de memória afetiva, muitos grupos ainda se reúnem para manter viva a tradição. Na comunidade do Tururu, no bairro do Janga, em Paulista, Região Metropolitana do Recife, a vontade de animar a periferia e resistir é maior do que uma série de dificuldades. O “Urso Branco do Povão” começou a desfilar nas ruelas da favela, na década de 1990, de forma improvisada com latinhas e uma fantasia simples de La Ursa, feita de papel crepom e papelão.

Grupo se reúne na Quadra do Tururu (Foto: Rafael Bandeira/LeiaJáImagens)

Os fundadores e amigos, Thiago Mendes, 26, e Jonathan Lima, 24, começaram a participar da brincadeira ainda pequenos. A La Ursa desfilava pelas ruas de barro do Tururu, de casa em casa, e eles, mesmo com medo do barulho, corriam para observar. Quando as mães deixavam, participavam dos batuques. Thiago nem imaginava que um dia seria o responsável por vestir a tradicional vestimenta do Urso, que evoluiu ao longo dos anos. “No começo, a gente não tinha instrumento, nem nada. O Urso não tinha nem roupa e era feito de panos velhos. Hoje, temos uma cabeça nova e a roupa toda customizada para desfilar pelas praias e pela comunidade”, contou Thiago.

Para ele, a tradição da La Ursa diminuiu por causa da violência nas periferias. “A gente já perdeu vários componentes do nosso bloco para o crime. No fim de 2016, um dos nossos amigos foi assassinado e fizemos uma homenagem para ele no domingo passado, porque que se ele estivesse com vida, estaria brincando com todos”, afirmou o responsável por vestir a fantasia do Urso do Povão. O grupo é composto por quinze pessoas e desfila principalmente pelas praias de Maria Farinha, em Paulista, e Boa Viagem, no Recife.

Urso Branco do Povão anima as ruas do Tururu (Foto: Rafael Bandeira/LeiaJáImagens)

A montagem do Urso do Povão, assim como outras La Ursas de rua, não conta com grandes recursos financeiros ou apoio do poder público. Eles brincam em qualquer lugar de forma improvisada e quem quiser pode participar. Às vésperas do Carnaval, os amigos já estão desfilando e juntando o dinheiro arrecadado para ajudar nos custos e realizar uma festa no Tururu, ao fim dos festejos.

Para o historiador e pesquisador Mário Ribeiro, apesar da resistência em manter a tradição da La Ursa, a brincadeira perdeu espaço para um novo modelo de brincar o Carnaval no Recife. “As práticas culturais são vivas e se modificam de acordo com as necessidades dos grupos que fazem parte e dão sentido de existência àquela prática. Vários fatores contribuíram para a menor intensidade da manifestação cultural. As inovações tecnológicas mudaram a forma de se relacionar e o espaço de antigamente da rua vai se perdendo. A gente também percebe que cada vez menos as escolas estão preocupadas em salvaguardar o nosso patrimônio cultural. Apenas repassam essa prática como ‘folclore’, no sentido mais pejorativo do termo”, explicou.

Para ele, o novo modelo de vivenciar a cultura através de ‘camarotes’ também contribui para os carnavais de bairro desaparecer. “O próprio poder público deixa de investir em polos descentralizados, ou quando faz, não coloca essas manifestações culturais na grade de programação”, afirmou. Mário complementa ainda que não é correto afirmar que a brincadeira desapareceu completamente. “Se você procurar nas periferias acha em vários bairros menos favorecidos, mas a tradição perdeu muito espaço”, pontuou.

 

A La Ursa foi incrementada e se tornou agremiação de Carnaval

Muito além da brincadeira inocente de rua, os ursos também desfilam nas passarelas do Carnaval pernambucano. As La Ursas espontâneas evoluíram para uma versão mais profissional e muitas viraram blocos carnavalescos. A maioria tem melhores condições financeiras e contam com o apoio de pessoas para customizar a fantasia, roupas dos brincantes e enredo. Com capricho e dedicação, os ursos desfilam no concurso de Agremiações Carnavalescas promovido pela Prefeitura do Recife. O Urso Polar de Areias (fundado em 1950), o Urso Preto da Pitangueira (fundado em 1957), o Urso Texaco (fundado em 1958), o Urso Branco da Mustardinha (fundado em 1962), o Urso Popular da Boa Vista (fundado em 1964) e o Urso Minerva (fundado em 1969) são algumas das principais agremiações da festividade.

Os grupos saem com roupas elaboradas e acompanhados por orquestras que usam sanfona, triângulo, pandeiro, reco-reco, ganzá, tarol e surdo, podendo incluir cavaquinho, violão, banjo, clarinetes e trombones e que tocam músicas carnavalescas, baião, xote e forro. “A história e a função de cada personagem (ou figura) muitas vezes mudam de grupo para grupo. O Urso dança preso ao Caçador por uma corda ou corrente e, em alguns momentos do desfile, foge e simula ataques ao público. O Caçador traz uma espingarda e exibe o Urso capturado. O Italiano representa um “gringo”, com uma maleta de dinheiro, como vendedor do Urso ou tentando comprá-lo”, diz trecho da explicação no site da Prefeitura do Recife.

Cristina ganhou o concurso de agremiações por dez anos seguidos (Foto: Rafael Bandeira/LeiaJáImagens)

Em Água Fria, na Zona Norte do Recife, reside um dos ursos com mais títulos na competição. O Urso Cangaçá foi fundado em 1983 por Johnson Arcanjo, João Eugênio e Zuleide Alves. No início, a brincadeira era feita com roupas velhas, ao som de batidas de latas, percorrendo a comunidade. Em 1996, como os fundadores não podiam mais “tomar conta” do bloco, passaram a presidência para Cristina Andrade, 69, atual presidente do Urso Cangaçá. Ela, com dedicação e amor ao Carnaval, revigorou a brincadeira e deu um tom mais profissional.

Com a ajuda da comunidade e da família, ela colocou o Urso Cangaçá no topo do concurso por vários anos. Em sua residência, onde também funciona a sede do Urso, o espaço é dividido entre todos os adereços da agremiação e os móveis da família. “A gente faz isso por amor, mesmo. Não é por dinheiro já que lucro é quase nada. Fomos campeões por dez anos sem interrupção e eu faço questão de todos os anos inovar, na homenagem, nas roupas e no enredo” detalhou Cristina.

Em Água Fria, O Urso Cangaçá é tradição e chama atenção por onde passa (Foto: Rafael Bandeira/LeiaJáImagens)

Em Peixinhos, bairro de Olinda, Dona Bia, como é conhecida Maria de Lourdes, também decidiu montar o seu urso de Carnaval após um pedido espiritual de Mestre José, no Centro Espírita Mãe Oxum, em Jaboatão dos Guararapes, Região Metropolitana do Recife. No dia 9 de fevereiro de 1992, Mãe Bia fundou o Urso Branco do Zé, que no início foi feito com roupas velhas, lençol branco e retalhos de tecido. No início, desfilava pelos bairros de Jaboatão sem compromisso e unia o povo por onde passava. Ao passar dos anos, a brincadeira se tornou um compromisso carnavalesco e o Urso tornou-se uma agremiação.

Dona Bia construiu o Urso Branco do Zé após um pedido espiritual (Foto: Paulo Uchôa/LeiaJáImagens)

A casa de Maria Lourdes nunca mais foi a mesma. Atualmente ela mora no bairro do Ibura e montou uma sede provisória em Peixinhos. “Eu morei um tempo em Olinda, mas ou era eu ou o Urso. A gente faz sacrifícios, compra roupa para todo mundo e isso faz minha felicidade todos os anos, apesar da luta, ouviu?”, disse.

Assim como o Urso Branco do Zé, muitas agremiações ganham vida por causa da religiosidade, através de entidades da Jurema, Candomblé ou Umbanda. De acordo com o pesquisador Mário Ribeiro, são pedidos espirituais e há uma série de situações que os Ursos são apadrinhados. “Essas práticas religiosas vão se misturar à cultura construída aqui e classificamos isso como hibridismo cultural. A religiosidade está presente de acordo com o cotidiano do brincante. Essas pessoas vivenciam diariamente a crença e quando vão às ruas, fazem rituais de banhos de limpeza, alimentam as entidades e pedem proteção e autorização para desfilar”, explicou.

Com o intuito de registrar de forma completa e atual a história das La Ursas e Ursos de Carnaval em Pernambuco, Mário Ribeiro, em parceria com antropólogos e profissionais do audiovisual, deve lançar neste mês um material em livro e vídeo sobre o histórico da tradição pernambucana. “Produzimos um documentário com o incentivo do Funcultura e até o dia 15 de janeiro vamos entregar tudo à gestão. É um dossiê completo com aspectos históricos, personagens da religiosidade e peculiaridades, do Sertão, Agreste e todas as regiões do estado”, contou.

A ideia de Mário é que a tradição vire Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. “A pesquisa teve início no fim de 2016 e finalizamos agora em janeiro de 2018. A gente quer que a manifestação cultural esteja registrada no Livro das Formas de Expressão”, concluiu.

No Carnaval de 2018, quem deseja assistir às apresentações dos Ursos pode se deslocar até à Avenida Dantas Barreto, no centro da cidade. A Prefeitura do Recife ainda não divulgou o horário e data do evento, mas as agremiações dos ursos que fazem parte do Grupo Especial costumam desfilar na segunda-feira de Carnaval, a partir das 14h. Os grupos 1, 2 e de acesso desfilam na Avenida do Forte, Zona Oeste da capital pernambucana.


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