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alma do boneco • 26/01/2018 - 10:21 • Atualizado em: 26/01/2018 - 10:24

Pelo 30º Carnaval, Pedro Mangabeira será a 'alma' do Homem da Meia-Noite

 
Carregador é o responsável por dar vida ao calunga e foi um dos candidatos a homenageado do carnaval de Olinda
 

por Marília Parente
Aos 60 anos de idade, Pedro sustenta 49 kg na cabeça por todo o percurso do bloco Foto: Rafael Bandeira/LeiaJá Imagens
 
 
Se os bonecos gigantes são protagonistas do Carnaval de Pernambuco, a tarefa de seus carregadores parece ingrata. São dezenas de quilos nas costas pelas intermináveis ladeiras e avenidas apinhadas de gente, percorridas de maneira quase anônima. No Carnaval de 2018, contudo, um carregador fez parte da lista de votação como homenageado da folia em Olinda. Não ganhou. Mas aos 60 anos de idade, Pedro Mangabeira se encaminha para seu trigésimo desfile carnavalesco sustentando sozinho os 49 kg do Homem da Meia-Noite e espera que a exposição que veio com sua indicação traga, além de tributos, algum auxílio financeiro para saldar suas dívidas pessoais. 
 
“Eu não tenho bons estudos, mas não sou analfabeto, porque sei assinar o nome e escrever um pouco. Profissão não tenho, sempre conciliei o serviço do Homem da Meia-Noite com os bicos. Pedreiro, eletricista, faço de tudo. Do bloco, só ganho pelas saídas - em 2018, receberá R$ 800 - e esse ano elas foram muito poucas”, comenta Mangabeira. Bonequeiro desde os 14 anos de idade, ele já dominava a arte de confeccionar bonecos gigantes quando fundou, em 1991, a Troça Seu Mangabeira, com o objetivo de movimentar a comunidade onde cresceu e constituiu família, em Olinda. “Sou apaixonado pela cultura. Meus sonhos era ver uma réplica de mim em forma de boneco gigante desfilando no carnaval da minha região. Foi aí que criei o Seu Mangabeira. Mas ele está parado há três anos, porque para colocar meu bloco do bairro na rua, eu preciso de pelo menos R$ 1.200”, lamenta. 
 
Pedro e sua "réplica gigante", estacionada há três anos por falta de verba. (Rafael Bandeira/LeiaJá Imagens)
 
Improvisada no terraço da casa de Pedro, a estrutura da sede da troça carece de reparos. Telhas, geladeiras, banheiros e o próprio boneco Seu Mangabeira estão quebrados por falta de verba para manutenção. “Penso que o Homem da Meia-Noite hoje é um clube que está em boas condições financeiras e que muita coisa, como o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, foi conquistada comigo como seu carregador. Se eu, pela história que tenho, recebesse pelo menos R$ 300 por mês em troca de prestar serviços lá dentro, pagava pelo menos algumas contas”, sugere. 
 
“Depois das 0h não sou Pedro Mangabeira, Sou o Homem da Meia-Noite”
 
Calado, Pedro Mangabeira passa pelos visitantes e membros do bloco, sobe a escadaria esverdeada da sede do Homem da Meia-Noite e dirige-se ao calunga. Confere a cartola, os detalhes da gravata, o estado das mãos e faz uma oração. “Para mim mesmo, pedindo proteção. Há trinta anos, ele é o primeiro com quem falo toda vez que chego no Bonsucesso”, conta. A relação de amizade com o calunga começou com outro vínculo que mudaria a vida do bonequeiro. “Conheci Cidinho, o último a carregar o Homem antes de mim, num evento. Ele me apresentou ao nosso antigo presidente, Tárcio Botelho, e logo me tornei um dos quatro carregadores do bloco. Cidinho fazia questão de me entregar o Homem durante o percurso, gerando até um certo ciúme nos outros carregadores. Ele me passou todas as instruções, me recordo de todos os conselhos e broncas”, conta. Quando Cidinho deixou o bloco, após 42 anos carregando o Homem da Meia-Noite, foi Pedro quem elegeu como sucessor. 
 
No canto direito da foto, Pedro e o ex-presidente Tárcio Botelho, com quem desenvolveu grande amizade. (Acervo/ Homem da Meia-Noite)
 
“Acho que levei muito do processo dele. O bonequeiro é a alma do boneco, é quem cria o personagem. Tem uns que pegam um gigante de certa idade, como Ariano Suassuna, e querem sair pulando como se ele fosse um menino. Temos que criar a personalidade de acordo com o que carregamos”, explica Pedro. Concebido em referência aos galanteadores que saem à noite em busca de encontros amorosos, o Homem da Meia-Noite foi fundado no ano de 1932, por dissidentes do Cariri Olindense, e representa um galanteador, que sai às ruas durante a noite em busca de encontros amorosos. “Ele já tem mais de oitenta anos, aí existe uma certa reverência, ando devagar, vou cumprimentando o povo. Depois das 0h, não sou Pedro Mangabeira, sou o Homem da Meia-Noite”, afirma. 
 
No Sábado de Zé Pereira, o Homem vê de tudo. Há quem se ajoelhe e reze para o calunga enquanto outros tentam beijar suas mãos. “Às vezes, vejo um idoso ou um menino, que já é um ‘apaixonadozinho’, aguardando até de madrugada para nos ver passar. Então quanto mais emocionada a pessoa estiver, mais ela precisa ser contemplada pelo calunga, ao invés de ser separada dele por um segurança. A preocupação é manter essa história viva”, comove-se Pedro. 
 
Pedro quase inteiramente coberto pela calça do calunga. (Acervo/Homem da Meia-Noite)
 
Para o carregador, que já sofre de constantes dores nas costas devido ao trabalho, ainda não há ninguém preparado para substituí-lo, embora o bloco já conte com dois carregadores mais jovens. “Quanto mais o tempo passa, maiores o peso e a responsabilidade que carrego. Não basta deixar o boneco alinhado, a pessoa não pode pegar o Homem da Meia-Noite e sair pulando como se ele fosse um menino. É preciso respeitar a tradição, carregar esse calunga é uma honra para qualquer bonequeiro”, completa.
 
Pedro Mangabeira: "a alma do Homem da Meia-Noite": 
 
 

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