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Luta contra preconceitos • 09/02/2018 - 20:49 • Atualizado em: 09/02/2018 - 19:49

O carnaval de Patrícia

Travesti desafiará o preconceito com muita autoestima em mais um Galo da Madrugada; depois da festa momesca, contudo, seu futuro é incerto

por Marília Parente
Patrícia foi agredida no último Galo Madrugada do qual participou Foto: Paulo Uchôa/LeiaJá Imagens
O corpo de Patrícia* está estendido no chão. Há cerca uma hora, ela sambava de shortinho e salto alto, no cruzamento das Rua do Sol com a Avenida Guararapes, no Centro do Recife, quando um dos garis que fazia a limpeza da área durante o Galo da Madrugada de 2007 acertou a parte posterior de sua cabeça com uma vassoura. Do asfalto quente, ela assiste, incapaz de se levantar, à multidão eufórica que acompanha os trios elétricos. “Ninguém me ajudou. A pessoa fica sem sentido, atordoada, sem querer brincar mais. Foi um carnaval horrível pra mim”, lembra Patrícia, que precisou se levantar sozinha para deixar o local. Agora, ela se prepara para voltar ao carnaval e encarar, além do preconceito, outros inimigos: o vírus HIV e a dependência do crack.
 
O primeiro, conheceu há cerca de oito anos, após um programa na “prainha”, conforme chama a área de manguezal no final da Rua da Aurora. “Quem vê cara não vê coração. Eu sempre usei camisinha, mas o cliente me convenceu a não colocar daquela vez. Disse que não ia passar nada”, conta. Profissional do sexo desde os 16 anos de idade, Patrícia foi expulsa de casa quando assumiu sua identidade de gênero. “Não tinha mãe, morava com uma tia. Tinha criança em casa e ela não me queria lá. Tive que pagar um quarto para me manter, aí fui ‘batalhar’ na Antonio Falcão (avenida em Boa Viagem)”, comenta.
 
Patrícia fez bateria de exames na semana passada, mas ainda não recebeu nenhum diagnóstico. (Paulo Uchôa/LeiaJá Imagens)
 
Com o dinheiro que conseguiu juntar, Patrícia construiu um barraco, que passou a dividir com uma amiga. “Eu não usava droga nenhuma, mas um dia essa mulher chegou com crack e insistiu para eu provar. Foi a perdição da minha vida”, afirma Patrícia. Daí em diante, uma sucessão de tentativas frustradas de largar a droga agravou ainda mais seu estado de saúde. Alguns programas em troca de dinheiro foram substituídos por aqueles em que o pagamento era a possibilidade de consumir crack. “A necessidade fala mais alto. Perdi o que tinha”, completa.
 
Devido ao difícil quadro clínico, Patrícia decidiu não trabalhar no carnaval. “Mas se eu ficar em casa trancada, vou entrar em depressão. Eu vou brincar o Galo, amo carnaval de alma, coração, salto alto plataforma ‘Luís 15’ e o resto”, argumenta. Cheia de autoestima, ela garante que vai se montar para o maior Bloco do Mundo sem temer novas agressões. “Eu barbarizo, fecho de cadeado. Carnaval é uma coisa que você se sente a vontade de se assumir. Você bota um salto alto, samba e todo mundo te admira. É coisa fina, não é pra todo mundo, mas é pra Patrícia”, brinca.
 
Ao fim da festa, contudo, o destino de Patrícia é incerto. Ela recebe apoio do Grupo de Trabalhos em Prevenção Posithivo (GTP+), organização de amparo às pessoas soropositivas em situação de grande vulnerabilidade social, mas não tem onde morar. Assim, é difícil manter a rotina de ingestão das seis medicações que precisa tomar, duas delas voltadas para o tratamento do HIV e as demais para complicações decorrentes da dependência química. “A ajuda do GTP+ é uma coisa incerta, porque não tenho como morar lá. Também não tem uma casa de apoio que recebe as travestis, que nos socorra. Não só eu, mas várias outras estão sofrendo”, lamenta. 
 
*Nome fictício
 
Carnaval de Todxs com Direitos
 
Até a próxima terça-feira (13), um serviço estará disponível para a população que brincará o Carnaval em Recife e Olinda. A ideia da ação é combater violação de direitos à pessoa idosa, negra, comunidade LGBT, vítimas de intolerância religiosa e consumidores. Ao todo, 50 profissionais prestarão às vítimas assistência social, jurídica e psicossocial.
 
A iniciativa, batizada de “Carnaval de Todxs com Direitos”, é promovida pelo Governo de Pernambuco, por meio da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos (SJDH). “Nos polos, o folião contará com assistência de técnicos do Centro Estadual de Combate à Homofobia (CECH), das Coordenadorias Estadual LGBT e de Igualdade Racial, do Centro Integrado de Apoio e Proteção à Pessoa Idosa de Pernambuco (CIAPPI), da Superintendência Estadual do Idoso e do Procon-PE . As equipes também estarão engajadas nas intervenções e orientações ao público-alvo, nos casos de qualquer tipo de violação, como assédio, ameaça e/ou discriminação”, informou a Prefeitura do Recife, por meio do site oficial.
 
O atendimento será na sede da SJDH, cujo endereço é na Praça do Arsenal, no Recife. O público ainda pode se direcionar ao Centro de Referência de Enfrentamento ao Racismo, a Casa CRER, no Carmo, em Olinda. Para o secretário-executivo de Direitos Humanos, Eduardo Figueiredo, busca a igualdade entre as pessoas é primordial. “Pensar em um Carnaval com garantia de direitos é reunir uma equipe multidisciplinar com olhar voltado para o idoso, para o público LGBT, aos mais vulneráveis. É, acima de tudo, trabalhar com o olhar da igualdade. Essa é a determinação do governador Paulo Câmara: reunir as equipes, articular parcerias e colocar todos nas ruas a fim de garantir os direitos da população”, declarou, conforme informações da assessoria de imprensa.
 
Serviço
 
Carnaval de Todxs com Direitos
Quando: de 09/02 a 13/02
Onde: Centro de Referência de Enfrentamento ao Racismo - Casa CRER
Rua Sigismundo Gonçalves, 654, bairro do Carmo – Olinda.
Das 10h às 16h.
 
Secretaria de Justiça e Direitos Humanos
Praça do Arsenal da Marinha, s/n, bairro do Recife.
Das 16h às 21h.

 

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