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Agremiação • 10/02/2018 - 10:46 • Atualizado em: 10/02/2018 - 11:48

Homem da Meia-Noite: o mais sagrado e misterioso calunga

Gigante de 4,5 metros desfila pelas ruas de Olinda a partir das 00h deste sábado (10)

por Nicole Simões
Acervo do Homem da Meia-NoiteBrenda Alcântara/LeiaJáImagensLeiaJáImagens/ArquivoRafael Bandeira/LeiaJáImagens
A figura mística do Homem da Meia-Noite, icônico bloco carnavalesco da cidade de Olinda, em Pernambuco, acabou de completar 86 anos no último dia 2 de fevereiro. A história da agremiação teve início no ano de 1932 e envolve diversos mitos e segredos que até hoje são debatidos entre as pessoas.
 
No meio de tantas possibilidades para o surgimento, a quem diga que um dos fundadores, Luciano Anacleto de Queiroz, apaixonado por cinema, se encantou com o filme "O Ladrão da Meia Noite" e por isso deu origem ao gigante de 4,5 metros de comprimento. O enredo da película falava sobre um galante homem que saía de dentro de um relógio gigante para assaltar a população de uma cidade.
 
Já a segunda versão é mais folclórica. Conta-se que um dos criadores do clube, o carpinteiro e músico Benedito Bernardino da Silva, sentava-se na calçada de sua casa e via sempre passando um homem alto e forte, que usava um chapéu preto e um dente de ouro.
 
"Como todo mundo se conhecia na cidade naquela época, ele achou estranhou e decidiu seguir aquele homem. E acabou descobrindo que o senhor era na verdade um Dom Juan, que pulava as janelas das donzelas para namorar", conta Luiz Adolpho, presidente do bloco desde 2002.
 
Até hoje, nenhum dos fatos são confirmados já que naquela época não havia muitos registros. E o que se sabe é que a criação do clube aconteceu devido a divergências entre os diretores do tradicional Cariri de Olinda. Entre brigas, seis desses homens acabaram saindo da liderança e fundaram o Homem da Meia-Noite, coincidência ou não, na mesma data em que se comemora o Dia de Iemanjá, a rainha do mar.
 
"O que a gente sabe é que tem que preservar tudo que vem do imaginário popular. Tudo que vem da cidade e das pessoas que construíram essa história conosco. O Homem da Meia-Noite é muito mais que um clube de Carnaval, é uma relação direta com a vida das famílias e acima de tudo com o misticismo que norteia a sua fundação", afirma o presidente.
 
Cheio de raízes históricas, o gigante mais famoso das ladeiras de Olinda é considerado um calunga do carnaval e não um boneco, porque ele carrega o título de entidade espiritual ligada aos rituais do candomblé.
 
Sua mística está relacionada as coincidências que rodeiam a sua criação, entre elas o horário de saída da sua sede, que todos os anos se faz a meia-noite. O mesmo horário da mula-sem-cabeça e do lobisomem.
 
A cada ano, uma nova vestimenta é confeccionada. E é durante sua troca de roupa, que acontece um dos maiores mistérios do calunga. No ritual, só pode entrar a diretoria do clube e além disso, todos precisam participar das programações da religião durante todo o ano para ter acesso ao momento.
 
"Ele por si só é um mistério. Há coisas que eu como presidente nem vou saber explicar e muita gente precisa vim aqui perguntar a ele e pedir respostas. O que eu posso dizer é que é algo de muita busca de proteção", revela Adolpho, que nesses 15 anos de diretoria nunca participou do ritual por não acompanhar os traços revelados da tradição e só pode tocar no calunga depois que está pronto.
 
A cerimônia é sempre realizada no fim de tarde, horas antes do desfile. É só as 00h que o galante homem sai às ruas para hipnotizar os foliões. O segredo é tão grande para proteger a identidade do personagem que todas as aparições do boneco antes do desfile na meia-noite do sábado de Zé Pereira, são feitas com a réplica do boneco gigante.
 
Durante toda sua história, o calunga já teve três sedes, foi feito de madeira e já teve quatro carregadores oficiais. O mais atual deles é Pedro Garrido, que já sustenta o calunga a três décadas. Segundo o presidente, algumas pessoas acreditam que apesar de tanta reforma, a estrutura da cabeça ainda é a mesma, mas o corpo mudou muito. Inclusive, há a suspeita de que exista algo do ritual dentro do calunga, para que faça ele pesar quase 50 kg, o que não foi confirmado pela presidência do clube.
 
"Mesmo depois de 50 anos acompanhando o Homem da Meia-Noite, eu ainda sinto um misto de encantamento e de medo. Não só por sua história, mas por toda responsabilidade que adquiri todo esse tempo. Eu realmente não sei o que prende a gente ao calunga, não sei o que é.  Algo move essa figura mística pernambucana, dá para sentir. Até porque, o sentimento quando a gente o coloca na rua é o mesmo", revela Luiz.
 
Em 2018, o homenageado do Homem da Meita-Noite é o artista André Rio. Pontualmente às 00h, da madrugada deste sábado (10) para o domingo (11),o calunga vai abrilhantar mais ainda o Carnaval de Olinda. A saída será na sede do clube, na Estrada do Bom Sucesso, 132, Olinda.

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