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Tradicional • 08/02/2019 - 10:00 • Atualizado em: 08/02/2019 - 10:00

Maracatu de Baque Solto, a brincadeira mais misteriosa do Carnaval

Histórias de brigas que acabavam em morte e a ligação com o sagrado transformaram o brinquedo em algo bastante enigmático

por Paula Brasileiro
Segredos e mistérios fazem parte do maracatu rural Foto: Rafael Bandeira/LeiaJáImagens

Houve um tempo em que maracatu era brincadeira exclusiva de homens adultos. Mulheres não participavam nem nos papéis femininos do cortejo e as crianças eram proibidas de entrar, devido a agressividade do brinquedo. Os caboclos se enfrentavam em duelos sangrentos e chegavam a passar dias sem tomar banho nem ter relações sexuais, para não quebrar o "calço", uma proteção espiritual necessária para ir para a rua, feita através de banhos de ervas e de uma bebida, o azougue, que misturava cachaça e pólvora.  

Tantas histórias, alegorias e lembranças - muitas vezes desencontradas -, dessa manifestação popular secular, repassadas por várias gerações, rendeu-lhe a fama de ser uma das mais misteriosas do Carnaval pernambucano. Quem faz parte de alguma nação garante que os segredos e mistérios são muitos dentro do maracatu, e para descubrí-los é preciso entrar na brincadeira para ver como é.

                                                                     

As mãos calejadas de José Manoel dos Santos, o Mestre Zézinho, de 64 anos, pedreiro de profissão e Mestre Caboclo do Maracatu Leão Misterioso, de Nazaré da Mata, bordavam lantejoulas coloridas na confecção de uma gola de caboclo enquanto relembrava como era a brincadeira quando ele começou, aos 29 anos de idade. Segundo ele, na sua época, havia menos folgazões - como são chamadas as pessoas que brincam -, e era preciso esperar um dia inteiro até que um caboclo passasse pela rua. "Hoje tem mais gente brincando porque o maracatu cresceu. Quando a gente começou, um brinquedo com 50 componentes já era grande, hoje em dia a gente tá com 120 e é um brinquedo pequeno", diz em referência à sua nação, que leva esse quantitativo de integrantes aos desfiles.

Zézinho garante que muito do imaginário que cerca o maracatu rural, ou de baque solto, é fruto de "conversas que contam do passado". As brigas entre caboclos durante o encontro de duas nações distintas, por exemplo, é algo que, segundo ele, nunca existiu: "Vi muitos caboclos brincando, agora essa briga eu nunca vi não. Essa onda de violência também é mentira do povo. Não existia isso". O mestre aprendeu a arte da ‘caboclaria’ com um caboclo mais velho, que já tinha mais de quatro décadas no brinquedo e nunca relatou nenhuma história de duelo. "Juntando o tempo dele com o meu já faz 70 anos de história. Desse tempo todinho, não tinha morrido um bocado de gente já, né? Tá vendo que é uma história mentirosa que o povo botou no maracatu?"

Mas, o mestre acaba revelando que havia uma prática de 'cruzar as bandeiras' entre os grupos quando aconteciam os encontros. Um gesto que selava a paz entre eles, mas que nem sempre funcionava a contento. "Tinha uma história de cruzar a bandeira; daí quando um brinquedo queria desfazer do outro, não cruzava a bandeira e tinha um probleminha. Mas era muito pouco". O mestre esclarece que a 'briga' que as pessoas enxergavam eram na verdade brincadeiras entre os folgazões, que faziam manobras e evoluções ao se encontrar, e garante: "Daqui só sai verdade. Eu nunca dei uma lapada em ninguém".

Já Vicente Manoel da Silva, presidente do Águia Misteriosa, também de Nazaré, diz que a violência no maracatu era real. Ele, que é trabalhador rural e se dedica à nação há 19 anos, diz ter ouvido de seu sogro, um dos fundadores da Águia que naquele tempo, havia até um lugar específico para confrontos, o Cemitério Bringa. "Quando se encontrava dava briga mesmo", relata.

                                                                  

A mestra Nice Teles, do Estrela de Ouro, de Condado, também conta ter ouvido, dos mais antigos, histórias de morte. Mas, além das rixas e diferenças entre os brincantes, ela alega outras motivações para os duelos, a falta de proteção espiritual. Esse também é um dos mistérios que cerca o maracatu, manifestação ligada às tradições de religiões de matriz indígena e africana, cujos segredos o tornam uma brincadeira ainda mais enigmática. Ela conta que alguns brincantes recorrem a banhos de ervas por acreditar que é necessária uma proteção espiritual para brincar tranquilamente, a isso se chama “calço” - segundo a mestra, não se bebe mais o Azougue. Nice é católica fervorosa e até concorda com a necessidade de se proteger, mas diz acreditar apenas no poder da oração para isso. Ela também não força nenhum dos integrantes do Estrela de Ouro a seguir nenhum ritual ou credo, e eles são livres para se 'calçarem' como acharem melhor. Mas ela, aconselha: "Se você buscar algo que não tem condições de assumir, é preciso muito cuidado. É muito perigoso".

A mestra relata já ter vivido contrariedades em sua nação por conta dessas forças e que seu próprio filho, Natan, durante anos, brincou acompanhado por um espírito que nunca se identificou: "Ele sempre saiu de índio e por uns dois ou três anos seguidos ele foi visitado, mesmo sem buscar, e era muito lindo". Segundo Nice, o jovem brincava incorporado e ela sempre respeitou a "visita". Porém, o menino acabou buscando auxílio do padre da sua paróquia que passou a benzê-lo com água benta e, desde então, as incorporações não mais aconteceram. Na nação de Nice, a maioria dos caboclos leva o seu cravo para receber o 'calço' do padre, através da água benta.

O Mestre Zézinho,  que abriu essa matéria com suas memórias, também é adepto da oração. No Leão Misterioso, sua nação, não há regras religiosas - como hoje é feito na maioria dos maracatus -, para o  caboclo, o poder da fé é o único segredo para manter-se firme na brincadeira. "Tem gente que crê nas coisas, eu mesmo só creio em Jesus. Eu saio com Jesus no coração. Eu uso o cravo, mas por causa da tradição, ali não tem nada", diz. E com sua sinceridade característica, revela um segredo: "Se chega o turista me perguntando eu faço também meu 'H', digo que aquele cravo foi benzido, invento uma conversa, porque o turista quer saber as coisas, tem que fazer o 'H'. Até pra ver se ele dá uma prata a mais pra mim".

"Coisa do diabo"

A relação, muitas vezes estreita, do maracatu com as religiões de matriz africana e indígena não só rendem ao brinquedo mistério como, também, olhares tortos. Muitos são os que acreditam que a brincadeira tem ligação com energias ruins e chegam a condená-la por acreditarem tratar-se de "macumba" ou "coisa do demônio".

Luiz Felipe da Silva, costureiro do Estrela de Ouro, de Condado, sentiu isso na pele. O jovem chegou a ser sacristão e trabalhava em um convento, mas ao juntar-se à nação acabou expulso. "O preconceito é grande, continua. As pessoas dizem que é coisa do diabo", conta. Mas o jovem não se intimida, seguidor da Umbanda e da Jurema Sagrada, sua fé e a paixão pelo maracatu lhe mantém firme. "Se você não tiver uma mente segura, você se perde".

Fotos: Rafael Bandeira/LeiaJáImagens

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