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Empoderamento • 12/02/2019 - 10:00 • Atualizado em: 12/02/2019 - 14:04

Cravo e batom: da presidência à caboclaria, as mulheres estão dominando o maracatu rural

Ressignificando tradições e quebrando preconceitos, mulheres de todas as idades reivindicam o direito de brincar e desmitificam sua presença na manifestação

 

por Paula Brasileiro

Pode-se dizer que a presença feminina efetiva nas manifestações da cultura popular pernambucana é algo recente. Nos 'tempos antigos', não lhes era permitido brincar na maioria dos folguedos, ou então, a elas cabiam apenas alguns papéis secundários ou de 'coxia', como confecção de indumentárias e organização. No meio do maracatu rural também era assim.

Era. Hoje, em pleno século 21, é possível encontrar mulheres desempenhando todas as funções em um maracatu, desde a presidência até a caboclaria; e mais, já existe uma agremiação exclusivamente delas.

Foi na cidade batizada de 'capital do maracatu', Nazaré da Mata, na Mata Norte Pernambucana, que nasceu o Maracatu Coração Nazareno, a única agremiação composta somente por mulheres no Estado. Fundado na Amunam, a Associação de Mulheres de Nazaré da Mata, desde 2004 a nação vem ressignificando tradições e quebrando preconceitos ao abrir espaço para que as mulheres brinquem o maracatu de baque solto.

Mas essa ‘brincadeira’ não tem sido fácil. As integrantes do Coração Nazareno experimentam de perto o preconceito e o machismo, que muitas vezes começa em casa. "Meu marido fala que maracatu não é coisa de mulher não, maracatu é pra homem", diz Ivna Barbosa, uma das costureiras da nação. Mas essa prerrogativa não é exclusividade da casa da costureira e vem se repetindo ao longo das gerações.

                                                                    

Além do machismo estrutural presente na sociedade de maneira geral, outros motivos ajudam a corroborar a ideia de que o maracatu não foi feito para as mulheres. Antigamente, só homens adultos participavam da manifestação, que sempre foi envolta em histórias de violência. O peso da indumentária do caboclo de lança, um dos principais elementos do baque solto, que pode chegar a 30kg, também aparece como fator de afastamento delas.

Mas nenhum desses fatores demoveram Tereza Cristina, a Tina, de brincar como cabocla. Ela começou há 14 anos, em um "maracatu de homem", o Águia Misteriosa, e garante não ter tido muitos problemas. "Eu era um destaque, porque eu era a única mulher de cabocla". Ela relembra que algumas pessoas duvidaram que ela conseguiria fazer as evoluções e carregar durante toda uma apresentação o surrão, elemento que vai nas costas do caboclo e faz um som bem característico. "Eu via os homens fazendo e eu pensei: ‘por que não eu’. Joguei o surrão nas costas, joguei a guiada pra cima e tchau, já era".

Hoje, aos 48 anos, Tina é mestra cabocla do Coração Nazareno. Além de comandar a caboclaria, ela ensina às mais novas sobre as manobras e também sobre como enfrentar o machismo. "É só jogar a guiada pra cima e se soltar", diz com segurança. Ela entrega que alguns "maracatus de homem" ainda a convidam para brincar com eles, mas a mestra não abandona mais sua nação feminina: "Aqui é só mulher, mulheres se entendem".

Lucicleide Silva, coordenadora e musicista da agremiação também relata algumas dificuldades pelas quais as folgazãs passam. Olhares duvidosos, descrédito, e a 'briga' para poder ser uma das primeiras atrações no tradicional Encontro de Maracatus, na segunda de carnaval na cidade, são apenas algumas delas. mas com resistência e força de vontade, elas vencem todas: "Hoje o Coração Nazareno tá abrindo mais a cabeça da mulher, a gente mostra que ela não está aqui só pra ser baiana, ela pode estar onde ela quiser".

A jovem Joyce Imaculada, de 19 anos, também integrante do terno da nação, complementa: "Quando a gente entra, logo de cara, as pessoas dizem: ‘olha alí, é só de mulher, vamo ver se elas sabem fazer mesmo’. A gente quer ser reconhecida, mas não pra ser famosa, a gente quer respeito".

Já em Condado, também na Mata Norte de Pernambuco, a Mestra Nice Teles é a voz de comando da Nação Estrela de Ouro. Presidente da agremiação, ela conduz, com a firmeza que seu título lhe confere, e a doçura de uma mãe, cerca de 130 folgazões. "Eu sempre procuro dizer pra eles que o fato de uma mulher estar no comando não quer dizer que seja um lado fraco. Que eles procurem me ver como uma pessoa que coloca as coisas em ordem".

                                                                 

Mestra Nice também foi desacreditada quando assumiu a liderança do Estrela, mas com a sabedoria que só uma mestra pode ter, não esmoreceu: "Eu senti que não acreditaram que eu era capaz de assumir uma responsabilidade dessa. A gente sabe que tem uns comentários pela cidade. Mas, graças a Deus, desde 2013 eu tô assumindo. E tô tranquila".

Novas brincantes

O Maracatu Coração Nazareno está sempre de portas abertas para mulheres que queiram entrar na brincadeira. A coordenadora Lucicleide explica como fazer: "As meninas que querem participar devem se inscrever na Amunam e ela escolhe o personagem que ela quer. A mulher pode brincar onde ela achar melhor".

No próximo domingo (17), o Coração Nazareno vai promover um grande ensaio, em frente à sua sede, em Nazaré da Mata,  para comemorar seus 15 anos, com vários convidados. A festa é aberta ao público, e começa às 16h.

 
Fotos: Rafael bandeira/LeiaJáImagens
 
 
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