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Comando • 13/02/2019 - 10:00 • Atualizado em: 13/02/2019 - 11:21

Mestra Nice, a prova viva de que é o maracatu quem te escolhe

Comandante do maracatu Estrela de Ouro de Condado ‘ganhou’ a agremiação e encontrou nela o seu lugar

 

por Paula Brasileiro
Mestra Nice comanda sua nação com firmeza de líder e doçura de mãe Foto: Rafael Bandeira/LeiaJáImagens

Maria de Fátima Rodrigues é filha de uma tradicional família brincante de Cavalo Marinho, na cidade de Condado, localizada na Mata Norte de Pernambuco. Ela nunca gostou de maracatu de baque solto, achava até feio, mas após convites insistentes de conhecidos acabou desfilando e, de cara, se apaixonou. Hoje, a paixão virou missão e ela acabou se tornando mestra;  Mestra Nice Teles, comandante suprema do Maracatu Estrela de Ouro de Condado; uma prova viva de que não se escolhe brinquedo, é o maracatu que te escolhe.

Mestra Nice brincava no Cavalo Marinho Estrela Brilhante com sua família - o pai Antônio, e o tio Mariano Teles -, sem ligar para uma outra manifestação da tradição popular, o maracatu. "Eu dizia que nunca botaria um vestido de baiana em mim porque eu odiava, eu achava muito feio", relembra. Mas, em 2008, o convite vindo de uma nação de Aliança a fez mudar de ideia. Naquele ano, ela desfilou como Dama do Passo; em 2009, foi convidada para ser a rainha do Leão de Ouro e decidiu que não queria mais brincar.

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Foi então que, para tirar um dos filhos de uma nação que lhe exigia muito esforço, Nice bateu na porta do Maracatu Estrela de Ouro pedindo que o rebento ali brincasse. O ano era 2010 e Emanuel, o Saúba da Kombi, então dono da agremiação, aceitou o filho e a mãe para juntarem-se aos seus folgazões. Mas não foram só os dois que se juntaram à nação. Nice levou vários outros brincantes e acabou ajudando o maracatu, que era pequeno, a crescer. Em 2013, Saúba lhe fez uma proposta bastante ousada: "Ele carregou as coisas todas do maracatu pra cá  e disse: 'a partir de hoje, esse maracatu é seu'". A princípio, Nice se recusou a aceitar o ‘presente’. Achava que a responsabilidade era muito grande e aquele compromisso, ela não queria. Saúba não se intimidou diante da negativa; disse que estava de mudança para a cidade de São Paulo e que deixaria o Estrela de Ouro aos cuidados dela. E assim foi feito.

                                                                            

Hoje, seis anos depois, Nice conduz a nação com patente de mestra e carinho de uma mãe. Os brincantes são todos muito jovens, entre 15 e 30 anos, e seguem à risca a régua da comandante de 50 anos. Muito católica, ela deve a Deus e às suas orações o bom andamento do brinquedo e dos seus integrantes; e garante que para brincar o Carnaval tranquila, basta se apegar à sua fé para que tudo dê certo.

Sua dedicação e sabedoria na condução do maracatu logo lhe rendeu o título de mestra. “Quando me chamaram pela primeira vez de mestra, no Rio de Janeiro, eu fiquei assustada. Aí conversei com meu tio, Mariano Teles, e ele disse. E você não é? As pessoas estão reconhecendo o seu trabalho, então tome posse disso”; conta ao passo que  repete o que aprendeu com seus próprios mestres: "Meu pai sempre dizia: 'é pesado, mas nunca diga a ninguém que você sabe de alguma coisa'. A gente aprende todo dia alguma coisa. 'Só sei que nada sei'. Sou essa pessoa simples, por dentro e por fora".  E após assumir a posição Nice está sempre compartilhando seu conhecimento, ministrando oficinas e em seu trabalho fora do maracatu, como orientadora social em Condado. Além disso, ela também participa de trabalhos no teatro, com o Grupo Grial, e do Boi Marinho, de Hélder Vasconcelos.

Quanto aos desfiles, a mestra já não participa mais. Atualmente ela apenas se dedica aos cuidados na preparação do carnaval e manutenção da agremiação, o que não lhe tirou o brilho da brincadeira. "Eu vivo meu maracatu aqui, quando eu pego um pano, começo a cortar, quando escolho uma pedra, converso com um e outro. Eu já tô vivendo o Carnaval ali. Quando eu vejo todo mundo cumprindo sua parte, pra mim, eu já fiz meu Carnaval".

Mas apesar da visível garra e paixão pela sua nação, Mestra Nice reconhece as dificuldades. Neste ano de 2019, ela chegou a pensar em vender o Estrela de Ouro. Ela lamenta a falta de apoio do poder público: "Os vereadores poderiam ajudar mais, a gente vê que ainda são pessoas que não procuram interagir. Eu gostaria que eles se interessassem mais pelo que eles têm de precioso na cidade. A  gente sente essa falta deles. Isso é bom pra gente e pra eles, pra cultura se fortalecer mais"; diz a mestra que até vira vendedora em dias de ensaio da nação, em uma barraquinha que arma para vender comes e bebes e assim levantar algum dinheiro. Tudo para ajudar no custeio do grupo que já tem 38 anos de história, 150 integrantes e que é seu.

                                                                     

Em tempo

Sobre aquela viagem de Saúba, o antigo proprietário do Estrela de Ouro, a Mestra Nice até dá risada: "E ele foi?!" Ela conta que o amigo que lhe apresentou uma de suas grandes missões de vida acabou se tornando uma das pessoas que mais a ajuda a tocar a nação: "Ele me deu o maracatu, mas não saiu dele; ele é meu braço direito", afirma com um largo sorriso no rosto.  

Fotos: Rafael Bandeira/LeiaJáImagens
 

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