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Papa • 14/02/2019 - 10:00 • Atualizado em: 14/02/2019 - 11:23

Mestre João Paulo: 68 anos, 68 sambadas; o Papa do Maracatu

Experiente, o mestre é um dos mais respeitados e festejados da cultura popular pernambucana

por Paula Brasileiro
Com 68 sambadas no currículo, Mestre João Paulo é o Papa do Maracatu Foto: Rafael Bandeira/LeiaJáImagens

João Paulo dos Santos - morador da cidade de Nazaré da Mata, no interior de Pernambuco - tem 68 anos, já foi cortador de cana e hoje trabalha como pedreiro. Além disso, já gravou sete CDs, participou de projetos com nomes importantes da cena cultural brasileira, como o músico Siba, e se consagrou como um dos mais importantes e respeitados mestres de maracatu de baque solto. Com mais de três décadas de experiência, ele é o Papa do Maracatu.

Foi por volta de "1980 e poucos", como o próprio fala, que ele começou na arte da rima, embora a prática já viesse de muito antes. "Eu cantava maracatu no corte de cana, quando era adolescente, mas não tinha vontade, não (de ser mestre). Eu gostava de ir pro maracatu assistir", relembra. E foi assistindo a um maracatu, sob o comando de Dedinha de Araçoiaba, que João Paulo despertou para a possibilidade de entrar na brincadeira.

Dedinha cantou de forma diferente do que se costumava fazer na época. Seus versos rimavam sobre a natureza, inflação, violência, temas importantes e de cunho social. Aquilo instigou João Paulo e ele começou a se apresentar ao lado do amigo: "Quando eu fui sambar com Dedinha, a gente juntou a sociedade, professores, doutores, vereadores, isso foi em 80 e poucos, aí esse povo começou a chegar no maracatu porque a gente cantava uma coisa diferente. Aí o nome da gente cresceu".

                                                                         

O Mestre João Paulo cresceu de verdade. Hoje, ele é o líder do Maracatu Leão Misterioso, fundado por ele em 1990, professor de vários outros maracatuzeiros, dono de uma experiência que é só dele, e figura muito respeitada dentro da cultura popular pernambucana. "Hoje eu tenho mais nome que muitos mestres aqui, e eu tenho 68 sambadas, muitos mestres de maracatu não têm o número de sambada que eu", diz orgulhoso.

Mas o título não o impede de trabalhar duro pela sua nação. Para enfrentar as dificuldades, como falta de recursos para botar o Carnaval na rua, o mestre corre atrás e para isso vale de tudo, de "comprar fiado e pedir dinheiro emprestado", até vender rifas. "A gente é esquecido mesmo, o maracatu só é mais lembrado no carnaval", lamenta, mencionando a demora que leva para receber os cachês das apresentações carnavalescas contratadas pelo poder público.

Mas, para o Papa, a recompensa do trabalho duro vem do reconhecimento do povo. Viajado, ele é figura muito festejada também fora de Pernambuco. Quando chega em São Paulo, por exemplo, "é mesmo que chegar um Roberto Carlos da vida", ele conta. Por lá, e em outros lugares, o mestre passa sempre deixando um pouco do seu conhecimento, através de oficinas e aulas que ele se orgulha em ministrar. Ver seus ensinamentos sendo multiplicados, é uma das coisas que mais o motiva. "Pra mim, é um prêmio que a gente não pode esquecer".

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