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Cantor • 20/01/2017 - 10:42 • Atualizado em: 20/01/2017 - 10:56

Recifolia, Turma do Pinguim e homenagem do Carnaval: Almir Rouche abre o coração

Em entrevista ao LeiaJá, cantor revelou detalhes da sua trajetória musical e reforçou a valorização da cultura pernambucana

por Roberta Patu
Artista é um dos homenageados do Carnaval do Recife Paulo Uchôa/LeiaJáImagens (Artista é um dos homenageados do Carnaval do Recife )

Foi a partir do poleiro de um circo ‘tomara que não chova’ que o cantor e compositor Almir Rouche teve o primeiro contato com a música. Ainda quando criança, o artista assistia aos shows de Azulão, Genival Lacerda, Carlos Alexandre, Reginaldo Rossi e Adilson Ramos, de forma improvisada, por baixo da lona, na Vila Rubina - Distrito de Igarassu.

A experiência vivida nos circos de bairro, onde não existia coberta e contava apenas com uma estrutura precária, que Almir conheceu a cultura popular e conseguiu se enxergar nesse cenário. Antes de completar dez anos morou por um tempo em São Paulo, onde participou de festivais musicais e conquistou o primeiro lugar, cantando melodias de Roberto Leal.

Após voltar ao Recife, Rouche começou a fazer apresentações em bailes e a trilhar a sua trajetória, oficialmente, com 17 anos já na Turma do Pinguim. Completando 30 anos de carreira em 2017, o homenageado do Carnaval do Recife falou sobre sua trajetória musical, os percalços vividos, a Turma do Pinguim, a polêmica do Recifolia e a homenagem.

Em entrevista ao Portal LeiaJá, Almir falou com entusiasmo da homenagem. Atualmente com 47 anos, o artista disse que se considera novo, mas conta com uma longa história musical. “Acho que não tem idade para ser homenageado. Considero-me jovem, porém com uma longa carreira, por isso fiquei um pouco surpreso e lisonjeado", falou o cantor que também fez questão de dividir o mérito. "Esse título não é meu, é nosso, ou seja, de todos que fazem e fizeram parte da minha história”, disse.

Retomando a sua trajetória, Rouche relembrou como tudo começou. O primeiro contato com a música e a volta ao estado de Pernambuco depois de passar quase dez anos em São Paulo. “A primeira vez que vi um show foi escondido debaixo de um poleiro de um circo sem coberta, aqueles espaços circenses que eram chamados de ‘tomara que não chova’. Ali vi passar figuras importantes, como Azulão, Genival Lacerda, Carlos Alexandre, Reginaldo Rossi e Adilson Ramos. Foi a partir daí que consegui enxergar a cultura popular e me apaixonar por ela”, lembrou.

Já a sua primeira participação em um festival de música foi marcada pela melodia de Roberto Leal. “Eu sempre fui muito espontâneo e gostava de cantar, de me ver nos palcos e, quando a escola fez o festival musical participei, consegui conquistar uma premiação interpretando a canção de Leal: E bate o pé, bate o pé”, cantou. 

Depois de voltar para o Recife, Almir conquistou os palcos, nos bailes, que tinham duração de quatro horas. “Era um tempo longo de show e bem difícil porque tínhamos que interpretar as músicas de vários artistas nacionais e internacionais. Na época, cantávamos duas horas, tirávamos 30 minutos de descanso para lanchar e depois retornávamos. Foi muito cansativo, mas obtive uma experiência incrível”, contou.

Após vivenciar os bailes, o cantor ganhou o espaço dos trios elétricos com a Turma do Pinguim, nas décadas de 1980 e 1990. Apenas com 17 anos ele arrastava multidão e deu uma nova ‘roupagem’ ao frevo pernambucano com a ajuda de vários artistas, como Marrom Brasileiro e André Rio.

Segundo o artista, a mistura de ritmos foi necessária para não deixar o frevo morrer. “Estávamos ameaçados na época do Recifolia. Durante esse período, os investimentos eram praticamente todos voltados para as atrações baianas que estavam em alta e ocupavam o espaço da cultura local por incompetência nossa e de muitas pessoas. Para atender a demanda comercial, tínhamos que criar músicas picantes para ter o tempero que a produtora pedia e trazer um ritmo mais elétrico”, desabafou.

Para conseguir chamar mais atenção do público e reforçar a cultura de Pernambuco, Almir contou que chegava a reunir 80 bailarinos dançando vários ritmos como Frevo, Maracatu e Caboclinho.  “Teve um período que consegui influenciar a produção e colocar mais de 80 bailarinos na avenida. Fomos os pioneiros nisso e mostrar a nossa bandeira” falou satisfeito.

Ainda de acordo com o artista, quando ele cantava na Turma do Pinguim tudo era decidido pela Itamacará Produções e que a banda não teve um alcance nacional devido ao receio do produtor de perder o grupo. “Uma vez, fomos nos apresentar no programa ‘Perdidos na Noite’, com Faustão, e lá falaram que caso ficássemos colocariam a banda no circuito nacional, mas o produtor com medo de perder, não ganhou. Depois percebi que o Pinguim não podia me dar asas para voar, porque eu não conseguia ser eu mesmo. Só pude me mostrar verdadeiramente no álbum 'Evoé'”.

Quando se fala em Recifolia e valorização da cultura local, Almir faz uma comparação e critica a contratação de artistas que não são da região. “Hoje em dia há mais valorização da classe, já que quase 90 % das atrações são locais. Adoro Zeca Pagodinho, Caetano Veloso, mas eles não representam meu Carnaval. Como eu vou ligar a televisão e ver Caetano Veloso, Gilberto Gil? Amo esses caras, mas não é meu Carnaval. Eu quero ver Getúlio Cavalcanti, Marrom, Nena Queiroga, Alceu, Spok, Lamento Negro, Maracatu, Troças e Bonecos Gigantes”, considerou.

Em relação à homenagem que vai receber durante a abertura do Carnaval do Recife, que acontece no dia 23 de fevereiro, no Marco Zero, Almir fez mistério e revelou apenas que terá um cunho social muito latente. “Temos vários trabalhos sociais no âmbito musical aqui em Pernambuco e nesse dia quero dar destaque às pessoas que fizeram parte da minha história e vou apresentar algo bem social”, concluiu. Para comemorar os 30 anos de carreira, até o final do primeiro trimestre o cantor e compositor Almir Rouche vai contar a história da sua trajetória através de um álbum, DVD e livro. 

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