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• 23/01/2018 - 14:49 • Atualizado em: 23/01/2018 - 14:53

"Naná vai nos abençoar de onde estiver", diz Maestro Formiga sobre abertura do Carnaval do Recife

Ademir Araújo vai comandar uma orquestra com cem músicos no Dia do Frevo e afirmou que levará instrumentos de percussão para homenagear Naná Vasconcelos

por Eduarda Esteves
Paulo Uchôa/LeiaJáImagens ()

Conhecido nos quatro cantos do Recife como “Formiga”, apelido que ganhou ainda na adolescência por ser magro, inquieto e utilizar um óculos redondo para compor o vestuário, o maestro Ademir Araújo destoa quando comparado ao animal. É gigante, mesmo sendo pequeno e modesto, e em 2013 ganhou o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco. Referência para músicos pesquisadores da música pernambucana, ele se tornou conhecido pela habilidade diferenciada na composição e criação de arranjos musicais, do popular ao erudito, do palco ao chão.

Ademir Araújo de Souza nasceu em 1942 e seu destino era seguir carreira no ramo da arquitetura e do desenho. Ao terminar o primário, foi pra escola de desenho profissional e se interessou por arte decorativa. Teve o mesmo professor do artista plástico pernambucano Abelardo da Hora e tinha as melhores notas e projetos. Em um dos desfiles de 7 de setembro, um de seus amigos o apresentou ao universo musical das bandas escolares e desde então, o som dos instrumentos não saiu mais da sua cabeça.

Deixou de ser arquiteto pela música

No meio de sua trajetória no desenho, se apaixonou pela música e composição. “Eu inventei de ser músico. Eu não fui por talento e sim por força e acaso”, disse. O trajeto não foi fácil até ganhar a experiência que tem hoje, como compositor, instrumentista, arranjador e regente. Ademir não tinha dinheiro para se deslocar da comunidade da Ilha de Joaneiro até o curso de música. Saltava entre os bondes pedindo passagem de graça e não deixou o sonho se apagar.

Teve aulas com o professor José Gonçalves de Lima e o maestro Edson Carlos Rodrigues. Já no Conservatório Pernambucano de Música, estudou teoria, solfejo e harmonia. Também adquiriu conhecimento da base musical do frevo com o maestro Dudu. Em 1958 aos 16 anos, a primeira grande vitória. Ademir foi classificado para integrar a Banda Municipal da Cidade do Recife, com apenas um ano de estudo. Eis o pontapé inicial.

Durante a entrevista, realizada em um apartamento na rua da União, no centro da cidade, de frente ao que ele chama de cartão postal recifense, a rua da Aurora, ele conversou sobre sua trajetória, desafios e sonhos. Ademir me recebe com muita energia e em um de seus locais de composição. Teclado, computador e uma série de discos e livros sobre os mais variados assuntos dividem espaço na sala onde estamos.

Bom conversador, dono de uma história memorável e prolixo na fala, Ademir é o reflexo de seus arranjos. Complexos, mas geniais. Chamo Formiga pelo título de “maestro”, mas ele renega. Pede que eu evite falar esse termo e diga apenas “mestre”. “Veja, existe o mestre de artesanato, o mestre carpinteiro e eu prefiro. Sou pequeno diante de tantos. Quando um maestro sobre ao palco, você percebe que ele se engrandece e gosta de ser o melhor de todos. Já o mestre é simples. Prefiro. Mas pode chamar de Formiga também”, diz aos risos.

Dono de uma carreira de respeitável contribuição à cultura popular pernambucana, Formiga ainda hoje mantém a pulsação e presença nos palcos. Em 2018, vai ser o responsável por conduzir um arrastão de frevo no Recife Antigo, no dia da abertura do Carnaval do Recife. Com mais de cinquenta anos de dedicação à música e integrando o popular e erudito, ele já é uma figura onipresente nos festejos carnavalescos.

Confira a entrevista completa:

R: Te incomoda o Frevo ser lembrado, às vezes, só na época do Carnaval?

F: Sim, muito. Porque ela é consagrada música de Carnaval a partir da própria construção social, porque ela nem pra isso foi pensada. Antigamente, no mês de setembro, já se tocava nas rádios os arranjos carnavalescos, e hoje em dia quase não se toca. Começou sendo aniquilada e virou uma música de Carnaval. As pessoas não começaram a considerar, analisar que tipo de música é essa. Hoje o frevo é tema de pesquisa em muitos países. O samba não é só tocado em uma época, o baião não é, o sertanejo também não. A gente não pode obrigar ninguém a tocar frevo. Alguns compositores pegam uma canção de meio de ano e colocam em ritmo de frevo e faz sucesso. Mas eles confundem cantar com interpretar e fazem errado. Já aposentaram até Claudionor Germano, uma das grandes vozes que temos. Ainda mais, não vamos só culpar a sociedade, poder público também é omisso. O próprio músico contribui para isso. É uma classe separatista e sem gratidão. Teriam que ter seminário com esses novos cantores e colocando pra estudar o frevo tradicional. Não se pode construir o futuro derrubando o passado, acho uma pena que o frevo não seja lembrado sempre. Me dói. Mas o frevo continua tentando mudar a sociedade e contribuindo para a cidadania.

R: A festividade carnavalesca perdeu espaço nas ruas e ganhou novas formas nos camarotes. Você acha que essa nova forma de brincar o Carnaval atingiu a festa de bairro?

F:  Eu trabalho no Carnaval desde os 16 anos e hoje toco em palco. Tem um momento que gosto de relembrar. Na Praça da Independência, onde nasceu o frevo, eu passava por alí e observava um cercamento no local. Pensava que o dinheiro público estava com o carinho com a nossa festa. Mas me disseram que não era bem isso. Era um camarote de uma rede de televisão poderosa utiliza. Ali era um dos grandes momentos do Carnaval de pernambuco. As troças se juntavam ali. A gente se uniu com a Rural e a praça voltou para o povo. A rua é do povo e as pessoas que tem que entender isso. Falta muito para que o poder público leve a cultura popular não só com os polos descentralizados na época carnavalesca, mas durante todo o ano. Antigamente, existiam ensaios gerais no subúrbios e isso está morrendo. Quem não vem ao centro, muitas vezes só pode acompanhar a festa pela televisão. A tradição dos bairros está decaindo. Não existe um programa de frevo. As músicas tocadas, muitas vezes, não são nos ritmos marcantes de nossa cultura. Eu toco em palco, mas pra mim isso não deveria existir. Deveria ser um tablado. Isso nos aproxima do público. É uma briga de foice pra o pessoa tocar no palco. Eu não entendo. Tudo que eu tenho, construí com o povo na rua. O Carnaval de verdade é no chão.

R: O que você achou da substituição do Maracatu pelo Frevo na abertura do Carnaval do Recife?

F: Dia 9 é o dia do frevo e eu fui convidado para fazer o arrastão no Recife Antigo, na avenida Rio Branco. A intenção não era retirar a participação do Maracatu porque a convivência era fraterna. Eu não concordei com isso até porque o frevo tem uma ligação o Maracatu. Mas se pensaram que o Maracatu está se afastando, se enganaram. Eu vou incluir na minha percussão instrumentos simbólicos do ritmo para reverenciar e homenagear Naná. Eu vou alegre porque lá estou relembrando todos os ensinamentos dele, sabe?

Naná fez algo inédito. Conseguiu unificar as Nações de Maracatu. Por isso, estou solidário com a tristeza de todos e vou fazer uma grande festa. Eu só tenho a agradecer aos seus ensinamentos. Me chamaram para colocar vinte músicos com uma orquestra. Eu disse que iria no chão e colocaria cem músicos para fazer uma festa linda.

Eu simbolizo uma cultura pernambucana. Eu sou a Ciranda de Lia de Itamaracá, o coco de Luiz de França, o Maracatu de Dona Santa e o Baião de Luiz Gonzaga. Antes de as pessoas quererem retirar a importância da Naná, que expulsem outras coisas ruins de nosso Carnaval. Jamais essa imagem dele deveria ter sido retirada. Ele deve ser referendado por todos pernambucanos e brasileiros. O mestre está nos olhando e vai nos abençoar.

Mas, estou sendo parceiro da Prefeitura porque eles não foram desonestos. Eles não me chamaram pra ocupar o lugar dele, mas sim para homenagear o frevo. Eu agradeci porque me colocaram no chão. Disse ao prefeito que iria tocar onde devo estar, no meio do povo. Achei foi uma grandeza.

R: Você acha que faltam bandas e atrações locais na programação do Carnaval?

F: O Carnaval não é uma criação brasileira. Eu acho que a inclusão de bandas de alcance nacional é por causa de peso pesado. Quem é mais forte, fica. Agora acho essa justificativa falha de que o turista é atraído com atrações de fora. Pelo contrário, acho que viriam muito mais se colocássemos atrações locais de Ciranda, Coco e outras manifestações culturais. As pessoas viriam conhecer a nossa cultura de raiz, de verdade. Poderia ser feita uma noite do repentista. O pessoal quando escuta a minha opinião acha que sempre sou polêmico, mas não é isso. Respeito todos e acho que há lugar para todo mundo na música. Mas, acho que a construção das grades é um pouco confusa. As bandas são bem vindas, mas eles tem que valorizar o local também. Só que para exigir isso, as atrações daqui tem que se preparar.

Mas falta humildade aqui. Queria fazer a noite do Coco e ocupar o espaço com tudo que é nosso. Não entendo porque não se conversa e não montam reuniões. Eu participei da Frevioca em 1980 com o povo acompanhando e lotando o Pátio de São Pedro, mas isso se perdeu.

Quanto à questão da música local, eu não entendo. Não conheço a música brega pernambucana, como não conheço o pagode. É anarquia. Conheço o Samba de Zeca Pagodinho, por exemplo.

R: Ainda tem sonhos profissionais?

F: Em um país que tem a riqueza cultural do Brasil, eu sonho com a música combatendo a violência. Trabalhei com um projeto de menores infratores durante um tempo, mas tive que sair. Eu já quis montar uma banda de cheira cola e disse isso em uma reunião. Uma secretária me repreendeu pelo uso do termo, mas eu rebati. Meu sonho é humanizar a cidade do Recife com as manifestações culturais diariamente, ocupando cada praça dessa.

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