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Multidão • 25/01/2018 - 09:00 • Atualizado em: 25/01/2018 - 09:00

Dor de cabeça e folia: blocos que cresceram demais

por Geraldo de Fraga
Amantes de Glória leva cerca de 15 pessoas a sua prévia Nicole Simões/LeiaJáImagens (Amantes de Glória leva cerca de 15 pessoas a sua prévia)

O que não faltam no Recife são aqueles blocos de Carnaval que começaram pequenininhos, como uma simples reunião de amigos caindo na folia e, com o passar dos anos, se transformaram em grandes agremiações que arrastam multidões. Para se ter uma ideia, uma rápida pesquisa na internet informa que no primeiro desfile do Galo da Madrugada, em 1978, apenas 75 pessoas ‘frevavam’ pelo bairro de São José, acompanhados de uma simples orquestra.

É pouquíssimo provável que hoje outra agremiação se transforme em algo tão gigantesco como o ‘maior bloco do mundo’, mas as proporções que certas festam tomaram, sem que seus precursores esperassem, causaram uma série de obrigações que muitas vezes são inesperadas.

“Com a repetição da data e do local, a nossa prévia se popularizou. E devido ao aumento de pessoas, a gente precisou se organizar melhor, enfrentar a burocracia da cidade, solicitar apoio da Emlurb (Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife) e da Polícia Militar, por exemplo”, conta o jornalista João Baltar Freire, um dos organizadores do Amantes de Glória.

Fundado em 1997, o bloco arrasta hoje cerca de 15 mil pessoas em sua prévia, que em 2018, acontece no próximo sábado (27), no bairro da Boa Vista, centro do Recife. “O desfile do bloco na segunda-feira de Carnaval é tranquilo. A prévia é que é a nossa preocupação, pois é quando vão muitas pessoas. É complicado. Tem gente que nem vê o bloco”, diz.

João explica que toda a logística envolvida vem tendo que ser aperfeiçoada ano a ano. “Começamos procurando os comerciantes do bairro para fornecer estrutura, como a venda de bebida, por exemplo”, afirma. É consenso ainda, entre os ‘diretores’, que o aumento de seguidores é inevitável. “Com as redes sociais, a coisa piorou. Há uma cobrança gigante e qualquer incidente fica por conta do bloco”, lamenta.

Apesar das obrigações ocasionadas pela festa, os fundadores não pensam em mudar o dia ou o local da prévia para evitar a multidão. “Seria egoísmo. Carnaval é isso mesmo. Você bate uma panela e daqui a 10 anos tem 10 mil pessoas num lugar. Além do mais, é também um orgulho torna-se popular”, revela João.

Poço da Panela

O mesmo dilema vive Os Barba, troça que surgiu em 2002, no bairro do Poço da Panela. No último sábado antes do Carnaval, dia do seu desfile, o local fica praticamente intransitável. Hoje em dia, outros blocos até já se aproveitam desse momento de festa e se juntam congestionando ainda mais a ruas estreitas.

Samarone Lima, escritor e um dos criadores da troça, não sabe nem explicar como esse ‘boom” aconteceu. “Não tinha quase nada de movimentação por aqui quando começamos. Nos primeiros anos foi um barato, um carnaval comunitário com feijoada, frutas e um garrafão de aguardente”, relembra.

Ele, porém, lembra quando a coisa começou a ficar descontrolada. “A calmaria durou até 2010, depois começou a vir gente mais do que o normal. De lá pra cá, já teve ano em que não encontrei mais ninguém do início. Tem gente que eu nem conheço que me encontra e pergunta quando é o desfile”, afirma.

De acordo com Samarone, o que se mantém do início, e é um dos objetivos principais da troça, é a integração com os moradores do Poço. “Temos uma preocupação com a comunidade. São eles que têm prioridade para comercializar alimentos e bebidas e sempre colocamos eles nos melhores pontos. Quando conseguimos levantar algum dinheiro com a venda de camisas isso também é direcionado para a comunidade”, garante.

Alguns insatisfeitos com a suposta ‘desvirtuação’ da festa chegaram se posicionar publicamente sobre a ida de ‘mauricinhos’ ao desfile. Algo que, segundo Samarone, é refutado pelos fundadores. “A troça é anárquica, então não podemos dizer quem entra e quem sai de uma festa de rua. Se não tiver Os Barba não vai deixar de lotar o Poço. Os Barba foi apenas um imã, Carnaval é assim mesmo”, crava.

 

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