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Batuque • 27/01/2018 - 08:24 • Atualizado em: 27/01/2018 - 08:25

Os vários sotaques do maracatu

Manifestação cultural pernambucana tem trazido, cada vez mais, pessoas de todas as partes do Brasil e do mundo para brincar nas agremiações locais

 

por Paula Brasileiro

Localizadas em comunidades da Região Metropolitana do Recife, as nações de maracatu de baque virado são compostas de pessoas de todas as idades, em sua maioria, moradoras daquele bairro. Muitas delas nascidas e criadas no local, integram esses grupos desde pequenas, dando continuidade a um trabalho (e paixão) desenvolvidos no seio familiar. Porém, há algum tempo, a cara e o sotaque destas nações têm ficado cada vez mais diversos com a chegada de brincantes de todas as partes do Brasil e do mundo, que vêm para Pernambuco para fazer parte deste movimento no Carnaval.

Mas não basta vir, vestir o figurino e sair tocando e dançando pela avenida apenas no dia do desfile. É preciso vivenciar a realidade da nação tornando-se parte dela como qualquer outro integrante local. Assim estão fazendo, este ano, Ana Paula Passini, Mariana Ribeiro, Rafael Gulart, Erick Viana e Pedro Gontijo. O grupo veio de Minas Gerais e está hospedado, desde o início do mês de janeiro, em uma casa no Alto José do Pinho, Zona Norte do Recife. A escolha pelo imóvel se deu pela proximidade da sede do Maracatu Estrela Brilhante do Recife, nação de coração dos mineiros.

Mariana já é veterana no Alto. Ela vem para a comunidade desde 2013 e sai na percussão do Estrela desde 2015. A batuqueira diz que estar próximo à nação, dentro da comunidade da qual ela faz parte, é uma oportunidade de entender as dificuldades e realidades do lugar onde o maracatu é ancorado: “Eu como pessoa de fora, branca, privilegiada, tive acesso a um contexto universitário, até, me sinto na obrigação de vir conhecer melhor essa história e ter uma noção real do que isso representa na história do nosso país.”  

Pedro e Rafael estão vindo pelo segundo ano. Para eles, só aqui é possível viver o maracatu “de verdade”, como analisou Pedro. O amigo, que na primeira vinda apenas acompanhou os ensaios e o desfile, pois ainda não tocava nenhum instrumento, sentiu a necessidade de aprender e voltar para passar pela experiência completa: “Agora estou aqui de novo mas com outros olhos, agora como batuqueiro”. Já Ana Paula está no Recife pela primeira vez. Estudando maracatu, em Minas, há três anos, ela sentiu a necessidade de conhecê-lo “na raiz” e revela estar vivendo uma experiência “bem forte”: “Eu até tenho falado para as pessoas de lá que não dá para descrever com palavras, tem que vir e ter essa vivência.” Em sua estreia, Ana vai desfilar na corte do Estrela.

Em casa

Os mineiros, visivelmente à vontade no Alto, dizem que a recepção, tanto dos integrantes da nação, quanto dos vizinhos do bairro, sempre foi a melhor possível. “Não houve nada ofensivo da parte de ninguém”, diz Erick. Os amigos complementam contando que até os comerciantes os reconhecem a cada ano provando que, após sua partida, um ‘bocadinho’ de Minas ainda fica por lá.

Na hora da passarela, momento mais importante para a nação - quando se disputa o campeonato carnavalesco do Recife - eles são apenas mais um batuqueiro, baiana ou catirina, como todos os demais, porém, uma pontinha de responsabilidade a mais acaba recaindo sobre eles: “Existe uma zona de desconforto que é ser de fora e estar tocando no estrela, primeiro que aqui você escuta o maracatu desde que está na barriga da mãe. Nós chegamos apenas um mês antes do Carnaval. Rola uma tensão. A responsabilidade é muito grande.”

Depois do Carnaval

Quando chega a hora de guardar as baquetas e voltar para casa, a cabeça destes batuqueiros já está no Carnaval do ano seguinte. Eles passam o ano inteiro se organizando, inclusive financeiramente, para a próxima temporada carnavalesca no Recife. Em Minas, o batuque continua nos grupos percussivos lá formados como o Trovão das Minas, o Tira o Queijo e o Baque de Mina. Em 2018, só na casa destes mineiros, serão 12 pessoas de fora vindo brincar no Estrela Brilhante. Como eles, muitos outros batuqueiros de outras cidades também estão para chegar e muitos deles acabam se hospedando na casa de amigos que fazem por aqui. É possível dizer que em todos a vontade de tocar vai muito além de bater no tambor e curtir o Carnaval: “A gente ama o maracatu, ama o Estrela e isso já faz parte da nossa vida”, como diz a Mariana.

Batuque gringo

A princípio, ser chamado de ‘gringo’ parece um pouco grosseiro. Mas, com o passar dos anos, eles aprendem que, muitas vezes, esta é apenas uma forma de brincar com os estrangeiros que também aportam em terras pernambucanas para brincar o maracatu. Eles vêm do Canadá, França, Inglaterra, Escócia e até do Japão. O inglês Jackson Lapes conheceu o ritmo no Rio de Janeiro, em 2008, e, em 2013, chegou ao Recife para ver as nações de perto. Em 2015 ele passou a integrar a Nação Almirante do Forte, do bairro do Bongi, e, em 2016, tocou também com o Leão da Campina, do Ibura. Ele garante não ter sentido dificuldade de se integrar, mesmo com a barreira do idioma, pois a "paciência" dos brasileiros facilitou o processo de socialização. Vir de tão longe também não parece mais fazer tanta diferença dentro da nação: "Sei que tem gente que acha estranho ter estrangeiros, brancos e gringos que gostam do maracatu. Mas acho que a maioria dos batuqueiros que realmente são Maracatuzeiros gostam muito do fato que o maracatu virou famoso no mundo."

Ele, que já integrava diferentes bandas em sua terra natal desde os 14 anos, já conhecia a sensação de fazer parte de uma "família musical" mas a "energia do Carnaval", que só encontrou aqui, fez o coração do batuqueiro sentar praça no Recife: "Eu adoro fazer parte da minha nação, Almirante do Forte. A amizade e cooperação entre os batuqueiros e os brincantes, isso é a energia do Carnaval". Em casa, Jackson toca com o grupo percussivo Afon Sistema, criado por ele e pelo amigo Jake. Deste grupo, além dos dois, ainda chegarão mais seis pessoas para tocar no Almirante, este ano.

O outro fundador do Afon Sistema, Jake Calvert, divide o apartamento, no bairro das Graças, Zona Norte do Recife, e as experiências dentro do baque virado com Jackson. Ele passa o Carnaval no Recife desde 2008 mas foi em casa, na cidade de Bristol, que ele conheceu o maracatu. Ele já brincou no Leão da Campina e, agora, no Almirante do Forte: "Nas agremiações com quem já brinquei, sempre me senti muito bem recebido e já fiz muitas amizades fortes com os integrantes".

Preocupado em somar com as comunidades e agremiações locais, Jake conta que sempre busca passar por aulas com os batuqueiros e, este ano, ele e o grupo que o acompanha vindo de Bristol, trouxeram os próprios instrumentos: "Assim tentamos fortalecer o Almirante sem atrapalhar ninguém no Bongi que está criando, re-criando e mantendo esta cultura linda." Para o batuqueiro, a sensação de vivenciar este Carnaval é de alegria e de "lições de vida": "A experiência de todo mundo estar na rua partilhando a folia é uma coisa muita rara na Inglaterra. Lá simplesmente não existe como uma cultura tão forte como aqui".

 

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