Clicky

Agremiações • 30/01/2018 - 16:42 • Atualizado em: 07/02/2018 - 14:43

Folia feminista: conheça os blocos que são puro empoderamento

No meio da brincadeira, agremiações trazem mensagens de luta contra o desrespeito, machismo e assédio

por Nicole Simões
Reprodução/Pri Buhr/Facebook do Essa FadaReprodução/Magali Marino/CortesiaReprodução/Facebook do Essa FadaReprodução/Instagram do Vaca ProfanaReprodução/Magali Marino/CortesiaReprodução/Amanda Martins

O Carnaval é uma das festas mais espaçosas e democráticas que existem. Nele, brincam pessoas de todas as idades, gêneros e cores. É um lugar para se divertir e aproveitar, mas também é uma festa onde muita gente quer falar sobre temas relevantes para a sociedade.

Com muita alegria, descontração e brilho, blocos feministas cada vez mais têm surgido no cenário das agremiações trazendo sempre mensagens de luta contra o preconceito e diferenças sociais e apoiando a diversidade. No Recife e em Olinda não é diferente. Em todos os carnavais o protagonismo feminino toma mais espaços onde antes os homens ditavam as regras.

Elas desfilam suas provocações na festa que se propõe a ser a mais democrática do mundo. Conheça alguns desses blocos.

Vaca Profana

Um dos mais conhecidos é o Vaca Profana, que começou em 2015, quando a produtora cultural Dandara Pagu resolveu usar uma fantasia de carnaval em referência à música de Caetano Veloso. Incomodada com o desfile de corpos masculinos sem roupa, a fundadora do bloco resolveu também sair as ruas com os seios à mostra, para levar a reflexão sobre liberdade e hipersexualização do corpo da mulher.

Alvo de críticas, ela lembra que nesse dia um policial tentou prendê-la. "Ele queria me prender e isso foi a maior prova de que a mulher não tem domínio de nada, nem do seu próprio corpo no carnaval", revela. A partir daí, o espanto opressor diante dos seios femininos despidos foi a mola propulsora para que no ano seguinte, em 2016, a Vaca Profana virasse bloco.

"Saímos as ruas para dizer que o corpo é nosso sim, e a gente faz o que bem entender com ele. Porque no carnaval há a desculpa de que tudo pode, mas a gente está aqui para dizer que não é bem assim e que pode tudo que a mulher permitir. A mulher o tempo todo é julgada, inclusive no carnaval onde tudo é mais permitido. Ela ainda sofre com assédio, desrespeito e várias outras coisas", ressalta Dandara.

Essa Fada

Já o Grêmio Anárquico Feminístico Essa Fada nasceu com disposição de chamar atenção para a naturalização do comportamento sexual da mulher, não só no carnaval, mas durante todo o ano. O nome da agremiação, que este ano realiza seu quarto desfile, é um trocadilho de “essa fada, és safada”, e segundo uma das fundadoras do bloco, Joana Aquino, é uma defesa do direito da mulher à liberdade sexual.

"Na nossa cabeça, a grande preocupação era sobre a liberação feminina, relacionada a uma liberdade de fazer o que quiser. Quando no primeiro ano a gente saiu no meio do Bloco Os Barbas, percebemos que a mulher não tinha nenhum protagonismo e a gente trouxe isso para dentro do Essa Fada. A grande profundidade do bloco é que a gente realmente se preocupa em fazer esse protagonismo da mulher nesse dia. A fala é nossa, é feminina. A gente quer que aquele momento seja só nosso", destaca a jornalista.

Por isso, a participação dos homens no bloco é liberada, desde que as mulheres assumam e tenham todas as atenções. "O homem pode vim, mas que venha agregando o protagonismo das mulheres. Não se trata de uma exclusão, se trata de seguir a linha de raciocínio político de que a mulher pode fazer o que ela quiser. Se eu estou falando de mulher, a atenção ali deve ser para as mulheres. A gente quer todo mundo, mas queremos que esse protagonismo seja nosso", diz Joana.

Débora Tito acompanhou também a fundação do bloco e viu de perto a evolução da agremiação, trazendo outras pautas para serem debatidas durante o carnaval. "Eu acredito que a gente cresceu bastante do primeiro ano para cá. Passamos a defender outros temas como por exemplo o respeito às diferenças de cor e gênero. Por que a gente entende que é nas brincadeiras que os preconceitos se perpetuam. E a gente não quer isso. A gente quer respeito. As vezes as pessoas ficam dizendo que somos radicais, mas eu acredito que em algumas vezes um pouco de radicalismo é interessante. Que não seja para excluir, mas que seja para a gente marcar uma posição", destaca Débora.

Todos os anos, as meninas do Essa Fada saem vestidas de fadas e procuram levar para as ruas um pouco de Pó de Sim e Pó de Não. "Na mensagem desse ano, a gente quer falar sobre uma pauta que já havíamos debatido no nosso primeiro ano: o que pode e o que não pode. O assédio ele pode acontecer por exemplo em um comentário numa rede social, mas no meio do carnaval as pessoas não reconhecem os limites. Eu posso sair nua como as meninas do Vaca Profana, mas eu não lhe dou o limite de tocar no meu corpo. Eu posso está dançando até o chão no carnaval de Olinda, se eu lhe paquerar beleza, mas se não, não é não. As pessoas precisam entender isso", esclarece Débora Tito.

"Vamos vir com essa bandeira esse ano, do não ao assédio no carnaval e que isso se estenda para o ano inteiro. Não vamos deixar as mulheres serem assediadas e ficarmos caladas. Não dá mais para calar, nem ficar em cima do muro. É importante, é urgente e é eterna essa luta", complementa Joana.

Cavaleira na Ladeira

No meio dos blocos mais antigos, há aqueles também que em 2018 vão sair pela primeira vez pelas ruas do Recife e de Olinda. Um deles é o Cavaleira na Ladeira, que faz uma alusão ao camarote Carvalheira na Ladeira, e surgiu de uma brincadeira de amigos.

Vestidas de guerreiras, as mulheres do bloco serão as protagonistas de todo o desfile. Para trazer a mensagem de cavaleiras, ao invés do cavalo, as meninas resolveram usar o unicórnio e a burrinha como as mascotes da festa. Misturadas, as figuras folclóricas receberam o nome de burricórnio e estarão por cima da fantasia das feministas.

"O carnaval é uma brincadeira, mas ao mesmo tempo é muito político. E o Cavaleira é um bloco que crítica várias coisas. Sejam elas a camarotização, o machismo ou o desrespeito. A gente precisa tratar de temas como esses, porque as mulheres sempre são oprimidas na sociedade e principalmente durante o carnaval. Sempre vai ter algum homem que vai tentar se aproveitar do corpo delas no meio dos blocos", explica a presidente do bloco Amanda Miranda, que é jornalista.

Como o desfile será totalmente gratuito e aberto ao público, para conseguir juntar dinheiro para pagar a orquestra, a organização do Cavaleira está vendendo algumas réplicas do 'burricórnio' em forma de bolsa para latas de bebidas e também de fantasia. O acessório custa R$ 10 e ainda vem com um pote pequeno de gliter e o hino do bloco. Já a roupa está sendo vendida pelo valor de R$ 30 e também acompanha dois glíteres e a letra da música do Cavaleira.

Segundo a organização da agremiação, os homens que quiserem participar podem usar as burrinhas, mas só as mulheres poderão ir de guerreiras. "O protagonismo aqui também é das mulheres. Quem fala e que é protagonista somos nós. Eles podem se juntar e somar na luta, mas sem querer roubar o nosso espaço", afirma Amanda. "Cada vez mais a gente não quer se esconder. Então, se você for guerreira, vá com roupa de guerreira e uma espada. Vamos lutar", complementa.

Boceta Voadora

Quem também vai decolar este ano é o bloco anárquico Boceta Voadora, que faz uma correlação com a história da mitologia grega sobre A Boceta de Pandora, uma caixa que continha todos os males e a deusa Pandora a abriu, desobedecendo o seu marido.

"A gente começou a pensar em um nome que transmitisse o que realmente queríamos falar. Em um século onde estamos retrocedendo, com mulheres sendo mortas e agredidas cada dia mais, acredito que o carnaval é um momento muito propício para falar de coisas sérias. E como temos mais liberdade para discutir esses assuntos, então, quisemos quebrar esse tabu e trazer a mulher libertária", diz Magali Marino, que é uma das fundadoras do bloco, juntamente com Caio Cezar, Paula Viana, Rafaela Rafael e Suzana Costa.

Para Magali, os blocos feministas não representam uma guerra dos sexos, mas sim, uma forma de pedir respeito e limites. "Nós não vamos as ruas para impedir que homens se aproximem de mulher. Pelo contrário, estamos tentando impedir a invasão ao nosso corpo. Não há nenhum problema em uma paquera, desde que a mulher permita essa aproximação. No momento que a mulher dar limite, é limite mesmo", afirma a sexóloga.

A fundadora explica ainda que a agremiação não é um bloco só de mulheres. É um bloco de gente, quer sejam mulheres feministas, homens feministas ou outros gêneros. Isso porque, por exemplo, durante o desfile o público masculino pode participar e acompanhar o bloco, sendo apelidados de "Peludos pró Boceta".

"Em um bloco como esse a gente se coloca como quem quer ser respeitada. Assédio é qualquer contato que uma pessoa faz e a outra não lhe permite o ato. É quando alguém invade o espaço do outro sem a permissão. Isso é o que eu acho que temos que rebater", complementa Magali Marino. Em seu primeiro vôo carnavalesco pelas ruas do bairro do Poço da Panela, no Recife, o Bloco Anárquico Libertário Boceta Voadora ainda vai fazer uma performance com os personagens Lilith e Pandora. Além de um sorteio com obras de arte que ilustram vaginas. Para participar, é preciso pagar um valor de R$ 15.

O desfile do bloco não terá orquestra, mas terá uma seleção de músicas que serão comandadas por uma DJ. No repertório estão canções como "Dance Day", "Eva Venenosa", "Pra Fuder", de Elza Soares, e "Lalá" da cantora Karol Conka.

Em 2018, o Vaca Profana também vai sair pelo terceiro ano seguido acompanhado de uma orquestra de frevo com 20 mulheres.

Confira a programação dos blocos feministas e saiba onde curti-los: 

Desfile do Boceta Voadora  

Dia 3 de fevereiro – 10h até às 18h 

Rua Engenheiro Bandeira de Melo, n° 100 – Poço da Panela  

Desfile do Essa Fada  

Dia 7 de fevereiro – 17h às 23h  

Casa Astral – Rua Joaquim Xavier de Andrade, 104, Poço da Panela 

Desfile do Vaca Profana

Dia 12 de fevereiro – 14h às 16h20 

Praça do Jacaré – Olinda  

Desfile do Cavaleira na Ladeira 

Dia 11 fevereiro – 14h 

Rua do Amparo – Olinda 

LeiaJá também

--> Sete desfiles de blocos feministas para não perder

Comentários