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Centenário • 28/02/2019 - 17:15 • Atualizado em: 28/02/2019 - 17:54

Primeiro boneco gigante, Zé Pereira completa 100 anos

 Original de Belém de São Francisco, no sertão pernambucano, o boneco aportou no Cais do Sertão, no Bairro do Recife, com justíssima pompa e foi recebido por outros 25 gigantes

por Marília Parente
Reprodução/LeiaJá Imagens ()

Folião de primeira categoria, o belemita Gumercindo Pires de Carvalho tinha apenas 19 anos quando já era um dos mais interessados ouvintes das estórias do padre belga Norberto Phalempim, reconhecido como homem extremamente culto. Além de conduzir a vida religiosa da cidade de Belém de São Francisco, no sertão de Pernambuco, o sacerdote costumava entregar, ao contar suas estórias, descrições valiosas dos festejos religiosos de seu país, onde os “gigantes processionais” atraíam os fiéis da Igreja Católica para as festividades religiosas. Empolgado com os relatos, Gumercindo construiu de barro e argila, em 1919, uma espécie de “gigante processional” profano, de traços ainda grotescos, que animaria o carnaval de sua terra natal. Estava inaugurado o Zé Pereira, primeiro boneco gigante do Brasil, que completa cem anos de existência neste 2019. Para comemorar a histórica data, a Secretaria de Turismo e Lazer do Estado de Pernambuco organizou, às 17h da última quarta (27), uma glamourosa recepção à Zé Pereira e sua “esposa” Vitalina, concebida dez anos depois de sua criação para acompanhá-lo na folia. 

Charmosamente atrasados, Zé e Vitalina deixaram público e imprensa esperando até as 17h30, quando finalmente aportaram a bordo de catamarã no Cais do Sertão, Bairro do Recife, onde foram recebidos por uma corte composta por outros 25 bonecos gigantes e 15 dançarinos. Ao som de uma versão instrumental em frevo de “Parabéns para você” executada por orquestra de frevo, o casal foi ciceroneado por conterrâneos que moram na capital. “A lembrança é muito marcante. A gente era criança e morria de medo daquele boneco gigante, saía correndo. Depois eles paravam nas casas para abastecer de bebidas toda a caravana que participava dos festejos”, comentou a aposentada Ana Ilma Caribé, uma das belemitas residentes no Recife que foi ao encontro de Zé Pereira.

Gumercindo Pires de Carvalho e esposa, Adelina Caribé. (Dinorá Caribé/acervo pessoal)

Reecontro: boneco gigante de Gumercindo esteve presente na recepção a Zé Pereira e Vitalina. (Marília Parente/LeiaJá Imagens)

Reza a lenda que a tradição de correr atrás das crianças começou com o antigo carregador de Zé Pereira, Manoel Cândido. Na recepção no Recife, o responsável por dar vida à Zé Pereira foi o belemita Juraci Gomes Pereira. “Estou sentindo orgulho de abrir o carnaval do Recife, comemorando os cem anos de Zé Pereira. Não tem cansaço não”, resume. Molhado de Suor, ele carrega um total de 20 kg apoiados nos ombros e na cabeça, metade do peso da primeira estrutura de Zé Pereira. “A armação original tinha um metro de largura de rosto e 4 metros de altura. Como o rosto era muito feito, ele teve a máscara aperfeiçoada. Zé Pereira foi modernizado, agora é constituído de fibra de vidro”, comenta a aposentada Dinorá Carvalho.

Nora de Gumercindo, a professora aposentada Dinorá Carvalho descreve o primeiro de todos os bonequeiros como uma pessoa “alegre e comunicativa”. “Ele dizia que Zé Pereira era um carnavalesco português, motivo pelo qual decidiu dar esse nome ao boneco. Sua família encomendou um boneco de Gumercindo, que desfilará em seu primeiro carnaval”, comemora Dinorá. 

Zé Pereira e Vitalina costumam abrir o carnaval de Belém de São Francisco, em um barco no Velho Chico. (Dinorá Carvalho/arquivo pessoal)

Abertura de Belém 

Tradicionalmente, Zé Pereira e Vitalina abrem a folia de Belém de São Francisco na sexta-feira de carnaval, chegando na cidade pelo Rio São Francisco, a bordo de um barco. O LeiaJá entrou em contato com a Secretaria de Cultura da cidade, que garantiu que o boneco estará de volta a tempo de cumprir o compromisso.

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