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Expressões do Carnaval • 20/02/2020 - 13:45 • Atualizado em: 20/02/2020 - 15:19

Há 100 anos, lúdica e cores da La ursa se perpetuam em família de artesãos

A figura animalesca percorre as ruas em busca de dinheiro e acusa os que se negam de "pirangueiro". Ainda assim, a representação artística da La ursa é uma das principais expressões populares do Carnaval pernambucano

por Victor Gouveia
Rafael Bandeira/LeiaJáImagens A entidade que baila entre blocos e roças, representa a libertinagem e o bom humor dos foliões (Rafael Bandeira/LeiaJáImagens)

Assim como os signos da cultura popular são mantidos entre gerações, a história de uma das principais expressões artísticas do Carnaval de Pernambuco também foi consolidada em herança. Com cerca de 100 anos produzindo La ursas, a família de Julião das Máscaras é reconhecida como a principal referência na arte das máscaras de papel machê e a responsável pela propagação das cabeças de urso pela folia.

O legado da autoria dos primeiros bonecos gigantes da Mulher do Dia e do Menino da Tarde foi repassado para Julião, assim como sua própria identidade. Na verdade, o artista foi batizado com o nome do pai, João Dias Vilela. Contudo, este também já era chamado por Julião, nome herdado do seu pai. O serviço prestado à cultura local fez de João Dias o homenageado no Carnaval de Olinda de 1993, mas antes mesmo deste reconhecimento, já abria as portas do ateliê para que o filho que, aos 12 anos, o ajudava na confecção das cabeças de La ursa.

Apaixonado pelas cores do Carnaval olindense e com as obras expostas em diversos países como França e Japão, ele destaca a popularidade da figura animalesca. “A La ursa é uma coisa que vem da brincadeira e vem também da realidade. A turma quando diz: ‘oh o urso da tua mulher’, é pessoal; mas quando diz: ‘a La ursa’, é na brincadeira”, explica.


Rafael Bandeira/LeiaJáImagens

“Eu viso a arte”

A temporada de máscaras do ser mitológico presente no imaginário pernambucano inicia junto às prévias carnavalescas da cidade, elevada a Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela Unesco desde o início da década de 80. É no mês de setembro, que o ateliê começa a ferver nas noites e adentra a madrugada. “Eu trabalho 24 horas por que a turma não me deixa não”, brinca.

O tempo de conclusão das peças dura aproximadamente dois dias. “É um processo meio longo, mas a perfeição é que tá aí”, garante. Neste período, água, papel e cola se unem para dar forma ao adereço. Após a secagem, a cabeça é retirada da forma e recebe novas camadas da mistura. Só depois, a tinta entra no processo, mas o que realmente dá a vida ao bicho são os cortes nos olhos, que metamorfoseia o folião neste símbolo do Carnaval de rua. “Eu tenho prazer de fazer [as obras] e ver o povo feliz, e tenho que acompanhar eles na felicidade. Eu fico feliz pelo povo valorizar a cultura de Olinda”, confessa.

“O Sol é para todos, mas a sombra é pra quem procura”

Às vésperas da celebração de Momo, Julião calcula que mais de 500 máscaras estão prontas para sair às ruas pedindo dinheiro. Isso porque, a fama das La ursas é mendicante. Os foliões saem vestidos em trapos de tecido em alusão aos pelos espessos e a cabeça funciona como um filtro que os liberta para a dançar e estender as mãos à espera de moedas.

Toda essa alegoria movimenta o bolso de jovens periféricos, que carregam tambores e instrumentos percussivos para animar o humilde cortejo. Ao fim, o dinheiro ‘apurado’ é partilhado entre os componentes. “Tem menino aqui mesmo que compra uma cabeça de La ursa, começa a brincar e daqui a pouco já tá com o próprio instrumento. Eles comprar, fazem a roupa e já saem batendo: ‘a La ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro’. Então, tá empestado de La ursa. Para eles é oportunidade”, avaliou os impactos socioeconômicos da sua arte.   

É notório que a fantasia acaba amedrontando algumas crianças. Elas se assustam com a carranca que aborda sem pedir licença para pedir dinheiro. Porém é inegável o espaço que este ser folclórico conquistou no coração do folião. Mesmo com todo apreço do pernambucano, a La ursa passou um tempo tímida, reclusa em sua própria simplicidade. Desse modo sua representatividade foi minada e perdeu força.

Com a retomada da presença em blocos e troças, o idealizador de uma das principais páginas voltada para a divulgação de festas no Grande Recife decidiu abraçar a entidade como mascote do Cabueta Cultural. “Eu sentia falta de uma personalidade, algo que ligasse os seguidores à página. Aí pensei: ‘todo mundo tem uma ligação tão grande com a La ursa, seria massa”, explicou o olindense Emerson Braga que, até já se fantasiou do animal e possui uma tatuagem em sua homenagem, antes mesmo do projeto.  

Reprodução/Instagram/@cabuetalcultural

“Vai ser a La ursa de Julião”

“Quando pensei em La ursa, já lembrei de Julião. Ele é a maior referência de La ursa que tem”, relembrou Emerson. Hoje, o Cabueta Cultura anuncia as festas com uma máscara branca - responsável pelos points do Recife - e uma prata - utilizada em temáticas especiais -. No entanto, a estreia da terceira cabeça já está marcada para o dia 12 de março, quando as cidades irmãs - Recife e Olinda - fazem aniversário. Após a festa, a versão preta vai ficar responsável por divulgar o Sítio Histórico de Olinda.

Julião comemora ressurgimento da sua arte na folia popular e o aumento da procura pelas peças. “Tem bloco que já tem nome de urso. Tem ‘O urso da tua mãe, O urso da tua mulher’. Tem todo tipo de urso e cada um tem um nome, quer dizer que expandiu”, avalia.

É neste processo natural de expansão que o artesão mostra que sua arte é tão livre quanto as vontades brincantes de uma La ursa. “A abertura é pra todo mundo. Se patentear e eu morrer, quem vai fazer? Quanto mais artistas melhor”, destacou. De fato, ele não tem medo de repassar todo o processo. Além de ministrar aulas, tem como ajudantes a esposa, Jeane, e o filho Mateus, que perpetua a quarta geração de produtores de máscaras da família.
Rafael Bandeira/LeiaJáImagens

Com valores entre R$ 60 e R$ 80, o artista consegue manter viva essa figura tão peculiar e lúdica do Carnaval local, contudo lamenta não ter recebido a mesma atenção oferecida a outros artistas de Olinda.

Sem conseguir autorização para tombar o antigo ateliê, repassado entre gerações, Julião acabou vendendo o templo e desabrigou as paredes que respiram parte da sua história, facilmente confundida entre as cores de uma das principais expressões artísticas de Pernambuco. Sem se abater, manteve o esforço em manter a cultura pulsante e comercializa as famosas La ursas em um bazar na Avenida Joaquim Nabuco, no bairro de Guadalupe, em Olinda.

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