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História • 21/02/2020 - 15:33 • Atualizado em: 21/02/2020 - 15:52

Há 100 anos, Bloco das Flores abria o carnaval para as mulheres

Assim como outras agremiações mistas da época, o centenário bloco da praça Sérgio Loreto foi um dos primeiros a institucionalizar a participação feminina na folia

por Marília Parente
Reprodução Em março de 1922, o extinto Jornal do Recife registra mudança de nome do bloco (Reprodução)

Com um grupo composto por 100 mulheres e 50 músicos de pau e corda, o Bloco das Flores desfilou pela primeira vez no Carnaval de 1920, em uma cruzada libertária e moralizadora ao mesmo tempo. Àquela época, os jornais locais já alardeavam a suposta violência dos blocos pedestres que circulavam pela cidade ao som do frevo rasgado e taxavam seu passo como sendo uma expressão “feroz”. Distribuindo seus pudicos “gettonis” (bombons cuidadosamente embalados) ao rapazes de seu agrado e interesse, a centena de pastoras trajadas de branco, com suas cestas de flores em punho, desempenhavam movimentos lentos e circulares pelo espaço público de um Recife que tentava se modernizar à luz da “belle époque”, a partir de novos valores sociais e arquitetônicos. Ao mesmo tempo em que finalmente estavam autorizadas pelas famílias a brincar o carnaval, “as moças de família” serviram ao interesse da classe média de “docilizar” o carnaval.

“As moças que participavam eram oriundas da classe média, não constituíam a elite da cidade. Os mais ricos participavam do carnaval dos clubes, enquanto o ‘povão’ saía pelas ruas atrás dos Vassourinhas, Clube das Pás e tantos outros, aos quais os pais das garotas de classe média não permitiam que elas fossem”, explica Jane Emirce de Melo, pesquisadora e membra do Bloco das Flores. De acordo com Jane, as componentes do bloco desfilavam às ruas envolvidas por um cordão humano masculino, formado por seus pais, irmãos e primos. “O primeiro nome da agremiação era Bloco das Flores Brancas, porque as meninas que começaram eram muitos jovens e vieram do pastoril, que era religioso e muito comum nos anos 1920. Na época, se valorizava muito a pureza e a virgindade da mulher. O nome mudou depois de uma sugestão de um jornalista do Jornal Pequeno”, conta.

Ao contrário da antipatia que nutria pelo passo, a imprensa pernambucana não apenas enaltecia como convocava os comerciantes e as famílias pernambucanas a engajarem-se nos blocos mistos, aos quais rasgava elogios. “O Bloco das Flores dispõe de cantos maviosos e marchas belíssimas. Quem assiste aos seus ensaios, ouvindo a sua suculenta orquestra sob a batuta do Maestro Osório Araújo, sentirá, certamente, crescer o entusiasmo, porque, efetivamente, o Bloco Flores, tem sabido mostrar seu valor e manter a linha carnavalesca”, publicava o Jornal do Comércio no dia 19 de janeiro de 1923, em clara exposição de contrariedade ao carnaval popular, tido como “parvo” e “sujo”.

Em outra nota, de 10 de janeiro de 1921, o Jornal do Recife exalta: “Folgamos em notificar que o nosso carnaval vai pouco a pouco se tornando rival do Rio, o nosso corso, em nada, perde no do que se efetua na capital da república. Aqui, apesar do frevo, há moralidade". Foi com base nesta passagem que a mestre em História pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Juliana Dias, titulou sua dissertação: “Aqui, apesar do frevo, a moralidade”. “Essa frase sintetiza muito bem o contexto de formação dessas agremiações que a gente nomeia de bloco carnavalesco misto. Havia um sentimento de modernização do Recife, era uma época de transformações e novidades, com sorveterias, cinemas e teatros. Estava sendo construída uma outra forma de vivenciar a cidade e os recifenses enfrentavam a contradição de desejar o novo e manter as raízes fincadas na tradição”, explica Dias.

 

Primeiras integrantes do Bloco das Flores eram membras dos pastoris, tradicional expressão cultural religiosa. (Katarina Real/Acervo Fundaj)

 

Revista da Cidade, em 1927, registra o que parecem ser componentes do bloco das Flores. (Reprodução)

A pesquisadora frisa que os blocos mistos também são reflexo do maior acesso das mulheres às ruas nos anos 1920.”Claro que existia a bandeira de controlar as ruas, do privado, pois eram blocos familiares, tentando ‘ordenar’ o carnaval e, nesse sentido, a mulher era o não à barbárie. A ida delas ao espaço público, contudo, apesar das limitações permite-lhes apropriarem-se de algumas vivências e experiências da cidade”, comenta Dias. A partir desses espaços, as foliãs passaram a ocupar, inclusive, a diretoria das agremiações. “Alguns blocos eram dirigidos por mulheres, que, inclusive, iam às rádios e comércios em busca de patrocínios. Também é possível encontrar até compositoras de frevo nesses períodos. Então temos exemplo de participação efetiva, elas não eram apenas uma aparição bonita para higienizar o carnaval”, continua.

Por outro lado, havia um esforço para preservar os valores da sociedade pernambucana da época. “O principal objetivo era a moralidade e a ‘organização’ do carnaval. Esse padrão vem de uma elite dominante que quer acabar com um carnaval que eles chamam de ‘roto’, ‘bárbaro’. Um padrão de silenciar o popular”, acrescenta Dias.

Presidente do Bloco das Flores, Zenaide Araújo, preocupa-se com a renovação da agremiação. (Júlio Gomes/LeiaJá Imagens)

Maior parte das componentes do bloco segue sendo de mulheres. (Júlio Gomes/LeiaJáImagens)

Anacrônico?

Preparando-se para entrar no centésimo carnaval com composição formada por 50 mulheres, 12 crianças, 17 homens e mais 20 músicos de apoio, o atual Bloco das Flores possui um perfil muito diferente do das mocinhas solteiras de 100 anos atrás. A presidente da agremiação, Zenaide Silva de Araújo, contudo, não acredita que a mudança de se dê pelos avanços do feminismo no século XXI, onde o empoderamento e a liberdade podem parecer destoantes do ambiente de recato e delicadeza que determinava o valor da mulher nos anos 1920 e permeava o bloco. “Somos, em maioria, pessoas idosas e nos preocupamos com a renovação. Temos um grupo de meninas, da escola de balé de Lúcia Tavares (integrante do bloco), que desfilam conosco desde 2017. Elas estarão na abertura do carnaval e em todas as nossas apresentações. É muito bonita a integração delas conosco”, conclui.

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